terça-feira, 21 de setembro de 2021

CONTINUAR....QUE ACHAM?

 

Também dizia ela  : " Minha mãe sempre costurou a vida com fios de ferro "


e, como há muitas  mulheres, muitas mães que ainda têm de" costurar a vida  com fios de ferro ", achei que valia a pena partilhar mais este belo poema de Conceição Evaristo


DE MÃE

 

O cuidado de minha poesia 
aprendi foi de mãe, 
mulher de pôr reparo nas coisas, 
e de assuntar a vida. 

A brandura de minha fala 
na violência de meus ditos 
ganhei de mãe, 
mulher prenhe de dizeres, 
fecundados na boca do mundo. 

Foi de mãe todo o meu tesouro 
veio dela todo o meu ganho 
mulher sapiência, yabá, 
do fogo tirava água 
do pranto criava consolo. 

Foi de mãe esse meio riso
dado para esconder 
alegria inteira


Espero que gostem e que me desculpem a repetição.

Emília Pinto

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

VOZES - MULHERES

 

 


 A voz de minha bisavó
 ecoou criança 
nos porões do navio. 
ecoou lamentos 
de uma infância perdida. 

 A voz de minha avó 
ecoou obediência 
aos brancos-donos de tudo. 

 A voz de minha mãe 
ecoou baixinho revolta 
no fundo das cozinhas alheias 
debaixo das trouxas 
roupagens sujas dos brancos 
pelo caminho empoeirado 
rumo à favela. 

 A minha voz ainda ecoa 
versos perplexos
 com rimas de sangue e fome.  

A voz de minha filha 
recolhe todas as nossas vozes 
recolhe em si 
as vozes mudas 
caladas engasgadas nas gargantas. 

A voz de minha filha 
recolhe em si a fala e o ato. 
O ontem – o hoje – o agora. 

Na voz de minha filha 
se fará ouvir a ressonância 
o eco da vida-liberdade.


Conceição Evaristo
In Cultura Genial


Infelizmente, ainda hoje a mulher negra sofre muito, em todos os aspectos . O preconceito continua

Não conhecia Conceição Evaristo, mas, por um feliz acaso, encontrei este belo poema e resolvi partilhar. Achei-o pertinente, já que muito nos tem preocupado a  situação dramática em que vivem as mulheres do Afeganistão

Emília Pinto

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

UTOPIA


 

Quero a utopia, quero tudo e mais 
Quero a felicidade nos olhos de um pai 
Quero a alegria muita gente feliz 
Quero que a justiça reine em meu país 
Quero a liberdade, quero o vinho e o pão 
Quero ser amizade, quero amor, prazer 
Quero nossa cidade sempre ensolarada 
Os meninos e o povo no poder, eu quero ver São José da Costa Rica, coração civil 
Me inspire no meu sonho de amor Brasil 
Se o poeta é o que sonha o que vai ser real 
Vou sonhar coisas boas que o homem faz 
E esperar pelos frutos no quintal 
Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço pra ter poder? 
Viva a preguiça, viva a malícia que só a gente é que sabe ter 
Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida 
Eu vou viver bem melhor 
Doido pra ver o meu sonho teimoso, um dia se realizar

Milton Nascimento


"Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida 
Eu vou viver bem melhor 
Doido pra ver o meu sonho teimoso, um dia se realizar"

 Acreditemos ! Viveremos melhor se tivermos esperança !

Emilia Pinto      

sexta-feira, 30 de julho de 2021

FÉRIAS

 

Imagem da net


 Hoje, venho falar das férias: é o tempo delas, como se diz que é o tempo das cerejas. Outra árvore dá estes frutos, e a mesma árvore os arranca: os dias as trazem até nós, os dias as levam. Neste escoar se vai o tempo, mas enquanto as férias se aproximam tudo é desejá-las, fazer projectos, embalar ilusões. Chegado o dia, temos diante de nós um espaço vazio à espera, como uma grande sala que é preciso habitar. Que vamos pôr lá dentro?
Há quem passe uns dias na terra, quem se atreva ao estrangeiro, quem conte os escudos para o toldo da praia. Há também quem não saia de casa e fique a ver, todas as horas do dia, a rua onde mora. 
Seja como for, os dias de férias ganham de repente um valor que os outros não tiveram. São dias totalmente disponíveis, à mercê da imaginação e das posses de cada qual. 
O tempo desligou-se da mecânica do relógio, é uma dimensão não delimitada, informe, um pedaço de barro diante das mãos que o vão modelar. As férias são também uma obra de criação. Não espanta, portanto, que no limiar delas um súbito temor nos intimide. Aquele intervalo entre duas representações, aquela clareira rodeada de floresta negra por todos os lados — que iremos nós fazer do barro do tempo?
( parte do texto )

José Saramago, in  Deste mundo e do Outro

Não sei o que o Começar de novo vai fazer, não sei para onde vai. Pedi-lhe que tomasse as devidas precauções que usasse sempre a máscara e não se metesse em confusões. Não quero que volte com a mala cheia de virus. 
Quanto a mim, Amigos, não irei para longe e portanto , sempre que possível, far-vos-ei uma visitinha. Prometi ao Começar de Novo que o deixaria sossegado até Setembro para que possa aproveitar bem as férias

 Deixo a todos vós um abraço e votos de que tenham umas boas férias, especialmente com saúde

Emília Pinto


quarta-feira, 14 de julho de 2021

RETALHOS

 

Imagem pixabay


 Sou feita de retalhos.

 Pedacinhos coloridos de cada vida que passa pela minha e que vou costurando na alma. 
Nem sempre bonitos, nem sempre felizes, mas me acrescentam e me fazem ser quem eu sou. 
Em cada encontro, em cada contato, vou ficando maior... 
Em cada retalho, uma vida, uma lição, um carinho, uma saudade...
Que me tornam mais pessoa, mais humana, mais completa. 
 
E penso que é assim mesmo que a vida se faz: 
de pedaços de outras gentes que vão se tornando parte da gente também. 
E a melhor parte é que nunca estaremos prontos, finalizados... 
Haverá sempre um retalho novo para adicionar a alma. 

Portanto, obrigada a cada um de vocês, que fazem parte da minha vida e que me permitem engrandecer
minha história com os retalhos deixados em mim. 
Que eu também possa deixar pedacinhos de mim pelos caminhos e que eles possam ser parte das suas
histórias. 
E que assim, de retalho em retalho, possamos nos tornar, um dia, um imenso bordado de "nós"


 Cris Pizzimenti


Este poema é muitas vezes atribuído a Cora Coralina., mas, parece que é desta autora.  Seja de quem for, gostei muito dele  e pareceu- me ser uma continuação das palavras de Rubem  Alves, na minha publicação anterior. Afinal, se deixarmos em nós, um " pedacinho " vazio para escutar o outro, vamos  a cada encontro, a cada contato ficando maiores "


Emília Pinto

quarta-feira, 30 de junho de 2021

A VIDA ....

 

imagem da net


 .... precisa do vazio:

 a lagarta dorme num vazio chamado casulo até se transformar em borboleta. 
A música precisa de um vazio chamado silêncio para ser ouvida. 
Um poema precisa do vazio da folha de papel em branco para ser escrito.
E as pessoas, para serem belas e amadas, precisam ter um vazio dentro delas. 
A maioria acha o contrário, pensa que o bom é ser cheio
Essas são as pessoas que se acham cheias de verdades e sabedoria e falam sem parar. 
São umas chatas quando não são autoritárias.
Bonitas são as pessoas que falam pouco e sabem escutar
A essas pessoas é fácil amar.
Elas estão cheias de vazio. 
E é no vazio da distância que vive a saudade..

Rubem Alves



Que lindo.....nunca pensei que o vazio fosse tão importante,,,


Emília Pinto
 


domingo, 20 de junho de 2021

CRIANÇAS .... SEMPRE!

 

Imagem Pixabay

 Criança

Cabecinha boa de menino triste,
de menino triste que sofre sozinho, 
que sozinho sofre, — e resiste, 

Cabecinha boa de menino ausente, 
que de sofrer tanto se fez pensativo, 
e não sabe mais o que sente... 

Cabecinha boa de menino mudo 
que não teve nada, que não pediu nada,
 pelo medo de perder tudo. 

Cabecinha boa de menino santo 
que do alto se inclina sobre a água do mundo 
para mirar seu desencanto. 

 Para ver passar numa onda lenta e fria
 a estrela perdida da felicidade 
que soube que não possuiria. 

 Cecília Meireles, in 'Viagem'

Criança tem uma " cabecinha boa ".... 
tudo a encanta....não exige nada...luta sempre e...resiste...

Que as crianças estejam, sempre, em primeiro lugar, nas nossas preocupações!

Emília Pinto


terça-feira, 15 de junho de 2021

DE NOVO, AS CRIANÇAS.....

imagem da net

A BAILARINA
 
Esta menina tão pequenina 
quer ser bailarina                                             
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé
Não conhece nem mi nem fá 
Mas inclina o corpo para cá e para lá 

Não conhece nem lá nem si, 
mas fecha os olhos e sorri. 

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar 
e não fica tonta nem sai do lugar. 

 Põe no cabelo uma estrela e um véu 
 e diz que caiu do céu. 
 
Esta menina 
tão pequenina 
quer ser bailarina

 Mas depois esquece todas as danças, 
 e também quer dormir como as outras crianças 

 Cecília Meireles

Conheci este belo poema através da nossa Amiga Olinda Melo que, no seu Xaile de Seda, o transcreveu para  homenagear a minha netinha Beatriz no seu 1o aniversário. Um mimo quer nunca vou esquecer!, Olinda!
Hoje, escolhi-o para lembrar todas as crianças que lutam pelos seus sonhos e, em especial. aquelas  que " também querem dormir como as outras crianças ", mas que, infelizmente, por motivos vários, não conseguem.

Emília Pinto 

terça-feira, 8 de junho de 2021

BOLA

 

imagem da net

 Jogar à bola na rua 

 - É triste, sabes? As crianças, hoje em dia, mesmo as mais dadas a jogos de computador e sei lá mais o quê, alimentam-se melhor, fazem mais exercício, têm físicos mais equilibrados. 
Para além de tudo, sabem fazer uma triangulação, percebem com toda a facilidade como se joga em quatro-quatro-dois e em quatro-três-três, acorrem a um pontapé de canto e cumprem a coreografia toda, dançando na grande área como os profissionais. Só que, depois, não têm intimidade com a bola. Não conhecem as suas manias, os movimentos mais imprevistos do seu comportamento, os seus amuos. E só os conheceriam se jogassem à bola na rua. Se jogassem à bola seis ou sete ou oito horas por dia, como nós chegávamos a jogar. Se fossem ao dentista arrancar um dente e, mesmo assim, precisassem de levar uma bola debaixo do braço, para ocupar os tempos mortos.

 Joel Neto, in 'Os Sítios Sem Resposta' 

 É muito triste, mas algumas crianças nem sequer  uma bola têm....

Emília Pinto

terça-feira, 1 de junho de 2021

CRIANÇAS

 

Imagem Pixabay 


Em louvor das crianças


 Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso. A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue. O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus.

 Eugénio de Andrade, in 'Rosto Precário'


Hoje, celebra-se   o ´DIA DAS CRIANÇAS e, com esta publicação, eu quero homenagear todas as crianças que sofrem, com fome, com as guerras e, lamentavelmente , ás mãos dos seus progenitores. São tantas.... tantas....tantas....tantas....
Para essas, o meu LOUVOR

Voltarei às crianças, neste mês de Junho

Emília Pinto 

sexta-feira, 14 de maio de 2021

VERIFICAR, SEMPRE!



Imagem da net


Todos Nós Hoje Nos Desabituamos do Trabalho de Verificar 


Todos nós hoje nos desabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente, do penoso trabalho de verificar. É com impressões fluídas que formamos as nossas maciças conclusões. Para julgar em Política o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, numa manhã de vento. Para apreciar em Literatura o livro mais profundo, atulhado de ideias novas, que o amor de extensos anos fortemente encadeou—apenas nos basta folhear aqui e além uma página, através do fumo escurecedor do charuto. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberana facilidade declaramos—«Este é uma besta! Aquele é um maroto!» Para proclamar—«É um génio!» ou «É um santo!» oferecemos uma resistência mais considerada. Mas ainda assim, quando uma boa digestão ou a macia luz dum céu de Maio nos inclinam à benevolência, também concedemos bizarramente, e só com lançar um olhar distraído sobre o eleito, a coroa ou a auréola, e aí empurramos para a popularidade um maganão enfeitado de louros ou nimbado de raios. Assim passamos o nosso bendito dia a estampar rótulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não há acção individual ou colectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda E a opinião tem sempre, e apenas, por base aquele pequenino lado do facto, do homem, da obra, que perpassou num relance ante os nossos olhos escorregadios e fortuitos. Por um gesto julgamos um carácter: por um carácter avaliamos um povo.

Eça de Queirós, in A Correspondência de Fradique Mendes


 Parece ter sido escrito hoje, não?  Melhor será usar mais o ponto de interrogação e não acreditar, imediatamente, em tudo o que se ouve.

Emília Pinto

segunda-feira, 3 de maio de 2021

MEU PAÍS

 Imagem Pixabay

 

Meu país desgraçado!
E no entanto há Sol a cada canto 
e não há Mar tão lindo noutro lado. 
Nem há Céu mais alegre do que o nosso, 
nem pássaros, nem águas…

Meu país desgraçado!… 
Porque fatal engano? 
Que malévolos crimes 
teus direitos de berço violaram? 

 Meu Povo 
de cabeça pendida, 
mãos caídas, de olhos sem fé 
— busca, dentro de ti, fora de ti, 
aonde a causa da miséria se te esconde. 

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar, 
fere-a sem dó 
com o lume do teu antigo olhar. 

 Alevanta-te, Povo! 
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres, 
a calada censura 
que te reclama filhos mais robustos! 

Povo anémico e triste, 
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
 — olha a censura muda das mulheres! 
Vai-te de novo ao Mar! 
Reganha tuas barcas, tuas forças 
e o direito de amar e fecundar 
as que só por Amor te não desprezam! 


 Sebastião da Gama, in 'Cabo da Boa Esperança'

O nosso País livrou-se de uma ditadura que violava os " direitos de berço " do seu povo Muito se tem conquistado desde o dia 25 de Abril , mas há ainda  muito a  fazer, principalmente no que respeita às mulheres que são trabalhadoras, são  Mães,  mas tardam a ser verdadeiramente reconhecidas pelo duplo trabalho que fazem, em casa e no emprego

Achei interessante este poema que nos retrata  um Portugal " desgraçado ", com censura , repressão e miséria. Felizmente, o País mudou muito.

Emília Pinto

domingo, 2 de maio de 2021

MÃE

 Imagem . Pixabay



Quando eu nasci, 
ficou tudo como estava, 
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu, 
nem houve Estrelas a mais... 
Somente, 
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu. 

Quando eu nasci, 
não houve nada de novo
senão eu. 

As nuvens não se espantaram, 
não enlouqueceu ninguém... 
P'ra que o dia fosse enorme,
bastava 
toda a ternura que olhava 
nos olhos de minha Mãe... 


 Sebastião da Gama, in Pensador

"  P' ra que este dia seja enorme ", seja especial, basta ver a ternura de uma Mãe quando olha os seus filhos , tenham eles a idade que tiverem.

A todas vós, queridas  Amigas,  desejo que tenham um dia muito alegre junto dos vossos filhos e que sintam sempre, da parte deles, a ternura e o carinho que merecem. Deixo-vos um cesto carregadinho de amizade e um abraço do tamanho do mundo  As flores que estão no cestinho acima, quero-as todas para a minha querida Mami  já noutra dimensão, mas sempre junto de mim.

Saúde e um dia muito feliz!

Emília Pinto  
 

domingo, 25 de abril de 2021

REVOLUÇÃO DOS CRAVOS

 

As mãos 


.Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
 Com mãos tudo se faz e se desfaz. 
 Com mãos se faz o poema – e são de terra. 
 Com mãos se faz a guerra – e são a paz. .

 Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra. 
 Não são de pedras estas casas, mas de mãos. 
 E estão no fruto e na palavra as mãos que são o canto e são as armas 
 
  E cravam-se no tempo como farpas
  as mãos que vês nas coisas transformadas. 
  Folhas que vão no vento: verdes harpas

  
 De mãos é cada flor, cada cidade. 
 Ninguém pode vencer estas espadas: 
 nas tuas mãos começa a liberdade 


 Manuel Alegre


" Nas tuas mãos começa a liberdade " escreveu Manuel Alegre,  a liberdade que foi dada ao  nosso país em 1974, no dia 25 de Abril, com uma revolução pacífica que encheu os portugueses de orgulho. Nas mãos de todos nós está a continuação desse direito á Liberdade. Lutemos por ele, sempre!

Emília Pinto





quarta-feira, 14 de abril de 2021

JUSTIÇA

 

Imagem - pixabay


 A Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista,não a que  permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exato e rigoroso  sinônimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo.


 José Saramago - in Pensador


O maior problema da nossa justiça é a morosidade para a qual contribuem o poder e o dinheiro

Emília Pinto

sábado, 3 de abril de 2021

ACEITAR....

 Imagem da net



O amor nos tira o sono, nos tira do sério, tira o tapete debaixo dos nossos pés, 
faz com que nos defrontemos com medos e fraquezas aparentemente superados, mas também com insuspeita audácia e generosidade. E como habitualmente tem um fim - que é dor - complica a vida. 
Por outro lado, é um maravilhoso ladrão da nossa arrogância. 
Quem nos quiser amar agora terá de vir com calma, terá de vir com jeito. 
Somos um território mais difícil de invadir, porque levantamos muros, 
inseguros de nossas forças disfarçamos a fragilidade com altas torres e ares imponentes. 
A maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranquilidade, querer com mais doçura

Às vezes é preciso recolher-se. 

 Lya Luft, in pensador


Estamos na Páscoa, época de reflexão....
Aceitemos com a leveza possível o que a vida nos vai trazendo a cada instante
Paz e saúde, Amigos!

Emília Pinto

domingo, 21 de março de 2021

VIDA

 




Imagem retirada da net

 
 
Assim eu vejo a vida
A vida tem duas faces: 
Positiva e negativa 
O passado foi duro 
mas deixou o seu legado 
Saber viver é a grande sabedoria 
Que eu possa dignificar 
Minha condição de mulher, 
Aceitar suas limitações 
E me fazer pedra de segurança 
dos valores que vão desmoronando. 
Nasci em tempos rudes 
Aceitei contradições 
lutas e pedras 
como lições de vida 
e delas me sirvo 
Aprendi a viver. 

 Cora Coralina

Primavera ontem.....  dia da Poesia hoje  e amanhã....bem... será um outro dia , se assim o quiser a vida, que deve ser vivido ainda com mais sabedoria, pois temos a obrigação de  aprender com o passar do tempo.

Gostei  da maneira como esta GRANDE SENHORA via a vida e espero que os meus amigos apreciem este poema

Emília Pinto




sábado, 6 de março de 2021

PRIMAVERA

 

Imagem pixabay

 

Quando vier a Primavera
Se eu já estiver morto, 
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. 
A realidade não precisa de mim. 

 Sinto uma alegria enorme 
 Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma. 

 Se soubesse que amanhã morria 
 E a Primavera era depois de amanhã, 
 Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 
 Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 
 Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 
 E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
 Por isso, se morrer agora, morro contente, 
 Porque tudo é real e tudo está certo. 
 
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. 
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. 
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro ( heterónimo de Fernando Pessoa )
In Pensador


E a Primavera já se faz anunciar, com os jardins floridos e os passarinhos chilreando nas árvores. Que ela renove em nós a esperança de dias melhores, a esperança de termos de novo aquelas pequenas liberdades que a pandemia nos tirou.

Um abraço e SAÚDE.

Emília Pinto



domingo, 21 de fevereiro de 2021

VOZES.....

 Imagem Pixabay

.... DE CRIANÇAS 

 O amanhã nos meus olhos é de um cinzento triste,
 é uma teia de luz cansada onde recordo quando iam dormir. 
Ainda lhes leio naquele quarto, 
debaixo da lâmpada ao lado da cama, 
os contos com capas duras de cores brilhantes. 
De súbito, em alguma madrugada, 
ouço uma criança que me chama e incorporo-me, 
mas não há ninguém, só um velho 
que ouviu o rumor da memória, 
um leve fragor de ar na escuridão 
como se uma bala atravessasse a casa. 
Ao apagar a luz guardava um tesouro. 

 Joan Margarit in - O NotaTerapia 

 
Joan Margarit i Consarnau (Sanaüja, 11 de maio do 1938 – 16 de fevereiro de 2021) foi um poeta, arquitecto e catedrático da Universidade Politècnica de Catalunya. Recebeu o Prêmio Miguel de Cervantes em 2019. Morreu em 16 de fevereiro de 2021, aos 82 anos de idade, em decorrência de um câncer. 

 
Não conhecia este poeta, mas, depois de ter tido conhecimento da sua morte, resolvi pesquisar. Gostei muito dos poemas que li. Escolhi este para partilhar com os meus amigos. Espero que gostem

SAÚDE, Amigos!

Emília Pinto

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

PARABÉNS

 

Sim, há dozes anos criei o Começar de Novo e confesso, não foi muito fácil aceitar esse desafio; os incentivos foram muitos, mas o receio era grande; finalmente decidi, mas sempre com a convicção de que não ficaria por cá muito tempo. Hoje, bendigo a hora em que o criei, pois graças a ele, a minha lista de Bons Amigos aumentou muito, Como estamos em confinamento, a festa não poderá ser aquela que os meus queridos amigos mereceriam; não há bolo e também não há champagne para brindarmos à Amizade, essa " palavra mágica " que fez com que o Começar de Novo chegasse até qui e que me leva a dizer que por cá continuarei, enquanto a vida me permitir São vocês, Amigos, que estão de parabéns e, como um " brinde" à Amizade, deixo- vos este belo poema que nos diz, com muita simplicidade, o que é um verdadeiro Amigo.


 

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
 
Amigo é um sorriso 
De boca em boca, 
Um olhar bem limpo 
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece. 
Um coração pronto a pulsar 
Na nossa mão! Amigo (recordam-se, vocês aí, Escrupulosos detritos?) 
Amigo é o contrário de inimigo!
 
Amigo é o erro corrigido, 
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada. 
Amigo é a solidão derrotada! 
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim, 
Um espaço útil, um tempo fértil,
 
Amigo vai ser, é já uma grande festa! 

 Alexandre O'Neill


E é  assim que sinto a vossa amizade, uma Festa, onde  experiências, afecto e muito carinho são partilhados  todos os dias. Muito Obrigada a todos

Um abraço carregadinho de Amizade

Emilia Pinto

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

O NOVO HOMEM

Imagem - pixabay


 O homem será feito em laboratório.
Será tão perfeito como no antigório. 
Rirá como gente, beberá cerveja deliciadamente. 
Caçará narceja e bicho do mato. 
Jogará no bicho, tirará retrato com o maior capricho. 
Usará bermuda e gola roulée. 
Queimará arruda indo ao canjerê, e do não-objecto fará escultura. 
Será neoconcreto se houver censura. 
Ganhará dinheiro e muitos diplomas, fino cavalheiro em noventa idiomas. 
Chegará a Marte em seu cavalinho de ir a toda parte mesmo sem caminho. 
O homem será feito em laboratório muito mais perfeito do que no antigório. 
Dispensa-se amor, ternura ou desejo. 
Seja como for (até num bocejo) salta da retorta um senhor garoto. 
Vai abrindo a porta com riso maroto: «Nove meses, eu? 
Nem nove minutos.» Quem já concebeu melhores produtos? 
A dor não preside sua gestação. 
Seu nascer elide o sonho e a aflição. 
Nascerá bonito? Corpo bem talhado? 
Claro: não é mito, é planificado. 
Nele, tudo exacto, medido, bem posto: o justo formato, o standard do rosto.
Duzentos modelos, todos atraentes. (Escolher, ao vê-los, nossos descendentes.) 
Quer um sábio? Peça. 
Ministro? Encomende. 
Uma ficha impressa a todos atende. 
Perdão: acabou-se a época dos pais. 
Quem comia doce já não come mais. 
Não chame de filho este ser diverso que pisa o ladrilho de outro universo. 
Sua independência é total: sem marca de família, vence a lei do patriarca. 
Liberto da herança de sangue ou de afecto, desconhece a aliança de avô com seu neto. 
Pai: macromolécula; mãe: tubo de ensaio, e,
per omnia secula, livre, papagaio, sem memória e sexo, feliz, por que não? 
pois rompeu o nexo da velha Criação, 
eis que o homem feito em laboratório 
sem qualquer defeito como no antigório, 
acabou com o Homem. 
     Bem feito.

 Carlos Drummond de Andrade, in 'Versiprosa' //


Não estará muito longe este Novo Homem, não acham? 

Emília Pinto

sábado, 9 de janeiro de 2021

E CONTINUA .....

Imagem Pixabay



 Humanidade às Cegas 


Tanto jornal, tanta rádio, tanta agência de informações, e nunca a humanidade viveu tão às cegas.
 Cada hora que passa é um enigma camuflado por mil explicações. 
A verdade, agora, é uma espécie de sombra da mentira. 
E como qualquer de nós procura quase sempre apenas o concreto, cada coisa que toca deixa-lhe nas mãos o simples negativo da sua realidade. 

 Miguel Torga, in "Diário (1948)"


Que diria Miguel Torga se vivesse agora? Infelizmente....que a cegueira continua...

SAÚDE, AMIGOS !

Emília Pinto