domingo, 2 de outubro de 2022

O OUTONO CONTINUA......

 

.....nesta CANÇÃO

No entardecer da terra, 
O sopro do longo outono 
Amareleceu o chão. 
Um vago vento erra, 
Como um sonho mau num sono, 
Na lívida solidão. 

Soergue as folhas, e pousa 
As folhas volve e revolve 
Esvai-se ainda outra vez. 
Mas a folha não repousa 
E o vento lívido volve 
E expira na lividez. 

Eu já não sou quem era; 
O que eu sonhei, morri-o; 
E mesmo o que hoje sou 
Amanhã direi: quem dera 
Volver a sê-lo! mais frio. 
O vento vago voltou. 

 Fernando Pessoa 

  ..." agora que a primavera adormeceu e o verão se foi embora, lembramo-nos de 3 poemas de outono do poeta que mais amou as palavras e as transformou em arte: Fernando Pessoa."
 in Wescribe 

Dos três, escolhi este, meus Amigos. Espero que gostem

A cada novo instante que a vida me dá, a cada novo outono também eu " já não sou quem era "

Emília Pinto 

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

CANÇÃO DE OUTONO

 

Imagem Pixabay 


Perdoa-me, folha seca, 
não posso cuidar de ti. 
Vim para amar neste mundo, 
e até do amor me perdi. 
De que serviu tecer flores 
pelas areias do chão 
se havia gente dormindo 
sobre o próprio coração? 

E não pude levantá-la! 
Choro pelo que não fiz. 
E pela minha fraqueza 
é que sou triste e infeliz. 
Perdoa-me, folha seca! 
Meus olhos sem força 
estão velando e rogando aqueles 
que não se levantarão... 

Tu és folha de outono 
voante pelo jardim. 
Deixo-te a minha saudade 
- a melhor parte de mim. 
E vou por este caminho, 
certa de que tudo é vão. 
Que tudo é menos que o vento, 
menos que as folhas do chão... 

 Cecília Maireles, Poesia Completa, vol. II


....tudo é vão....tudo é menos que o vento....menos que as folhas no chão... 

Valemos tão pouco e há quem pense ser dono do mundo!!!!

Emília Pinto

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

A RACIONALIDADE......

 

Imagem da net



 .....IRRACIONAL 

 Eu digo muitas vezes que o instinto serve melhor os animais do que a razão a nossa espécie. E o instinto serve melhor os animais porque é conservador, defende a vida. Se um animal come outro, come-o porque tem de comer, porque tem de viver; mas quando assistimos a cenas de lutas terríveis entre animais, o leão que persegue a gazela e que a morde e que a mata e que a devora, parece que o nosso coração sensível dirá «que coisa tão cruel». Não: quem se comporta com crueldade é o homem, não é o animal, aquilo não é crueldade; o animal não tortura, é o homem que tortura. Então o que eu critico é o comportamento do ser humano, um ser dotado de razão, razão disciplinadora, organizadora, mantenedora da vida, que deveria sê-lo e que não o é; o que eu critico é a facilidade com que o ser humano se corrompe, com que se torna maligno. Aquela ideia que temos da esperança nas crianças, nos meninos e nas meninas pequenas, a ideia de que são seres aparentemente maravilhosos, de olhares puros, relativamente a essa ideia eu digo: pois sim, é tudo muito bonito, são de facto muito simpáticos, são adoráveis, mas deixemos que cresçam para sabermos quem realmente são. E quando crescem, sabemos que infelizmente muitas dessas inocentes crianças vão modificar-se. E por culpa de quê? É a sociedade a única responsável? Há questões de ordem hereditária? O que é que se passa dentro da cabeça das pessoas para serem uma coisa e passarem a ser outra? Uma sociedade que instituiu, como valores a perseguir, esses que nós sabemos, o lucro, o êxito, o triunfo sobre o outro e todas estas coisas, essa sociedade coloca as pessoas numa situação em que acabam por pensar (se é que o dizem e não se limitam a agir) que todos os meios são bons para se alcançar aquilo que se quer. Falámos muito ao longo destes últimos anos (e felizmente continuamos a falar) dos direitos humanos; simplesmente deixámos de falar de uma coisa muito simples, que são os deveres humanos, que são sempre deveres em relação aos outros, sobretudo. E é essa indiferença em relação ao outro, essa espécie de desprezo do outro, que eu me pergunto se tem algum sentido numa situação ou no quadro de existência de uma espécie que se diz racional. Isso, de facto, não posso entender, é uma das minhas grandes angústias. 

 José Saramago, in 'Diálogos com José Saramago'


 O ser humano tem muito a aprender com os ditos animais irracionais, mas...não aprende nada e, creio, continuará assim.

Emília Pinto

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

FÉRIAS

 imagem da net



Queridos Amigos, como de costume, o Começar de Novo entra hoje, dia 1 de Agosto de férias e voltará em Setembro. Está já de mala pronta e, apesar de se ver um avião na imagem, não sei para onde vai. Não lhe pergunto, pois é livre de escolher o destino que quiser,

Eu, sim, vou ao Brasil, apesar da tristeza de não ter os meus pais à minha espera. A vida continua e temos de enfrentar a ausência daqueles que mais amamos. Não ficarei totalmente ausente, pois, sempre que puder, visitar-vos-ei.

Deixo- vos um abraço muito especial, desejando a todos um excelente Agosto e umas boas férias, especialmente com saúde, pois ela é o nosso bem mais preciosos. Muito obrigada pelo tanto de carinho que sempre dispensam a este meu cantinho


Emília Pinto 

quarta-feira, 13 de julho de 2022

O ÊXITO

 

.


O êxito parece a melhor das coisas
A quem nunca venceu na vida. 
Ter a compreensão de um néctar
Exige a mais dolorosa necessidade. 

De entre o purpúreo Exército 
Que hoje empunhou a Bandeira 
Nenhum outro poderá dar uma tão clara 
Definição da Vitória 

Como o vencido - agonizante - 
Em cujo ouvido interdito 
A distante ária triunfal 
Ressoa nítida e pungente! 

 Emily Dickinson, in "Poemas e Cartas" Tradução de Nuno Júdice

Nem sempre é a melhor das coisas, principalmente  o êxito nas guerras, só há "vencidos - agonizantes" 


Emília Pinto 

sexta-feira, 1 de julho de 2022

GUERRAS

 

imagem da net 

 A Inutilidade de Guerras e Revoluções 

As guerras e as revoluções - há sempre uma ou outra em curso - chegam, na leitura dos seus efeitos, a causar não horror mas tédio. Não é a crueldade de todos aqueles mortos e feridos, o sacrifício de todos os que morrem batendo-se, ou são mortos sem que se batam, que pesa duramente na alma: é a estupidez que sacrifica vidas e haveres a qualquer coisa inevitavelmente inútil. Todos os ideais e todas as ambições são um desvairo de comadres homens. Não há império que valha que por ele se parta uma boneca de criança. Não há ideal que mereça o sacrifício de um comboio de lata. Que império é útil ou que ideal profícuo? Tudo é humanidade, e a humanidade é sempre a mesma - variável mas inaperfeiçoável, oscilante mas improgressiva. Perante o curso inimplorável das coisas, a vida que tivemos sem saber como e perderemos sem saber quando, o jogo de mil xadrezes que é a vida em comum e luta, o tédio de contemplar sem utilidade o que se não realiza nunca - que pode fazer o sábio senão pedir o repouso, o não ter que pensar em viver, pois basta ter que viver, um pouco de lugar ao sol e ao ar e ao menos o sonho de que há paz do lado de lá dos montes

Fernando Pessoa in Livro do Desassossego

"Tudo é humanidade e a humanidade é sempre a mesma - variável mas inaperfeiçoável, oscilante mas improgressiva"

Destaco esta frase porque  ela resume aquilo que já todos nós pensamos.... O ser humano não muda! ; As guerras continuarão e quem sofre mais são as crianças por não conseguirem entendê-las.

Emília Pinto

quinta-feira, 23 de junho de 2022

BALÕEZINHOS

 

Imagem Pixabay 


Na feira do arrabaldezinho 
Um homem loquaz apregoa balõezinhos de cor: 
— "O melhor divertimento para as crianças!
Em redor dele há um ajuntamento de menininhos pobres, 
Fitando com olhos muito redondos os grandes balõezinhos muito redondos. 

No entanto a feira burburinha. 
Vão chegando as burguesinhas pobres, 
E as criadas das burguesinhas ricas, 
E mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza. 

Nas bancas de peixe, 
Nas barraquinhas de cereais, 
Junto às cestas de hortaliças 
O tostão é regateado com acrimônia. 

Os meninos pobres não veem as ervilhas tenras, 
Os tomatinhos vermelhos, 
Nem as frutas, 
Nem nada. 

Sente-se bem que para eles ali na feira os balõezinhos de cor 
são a única mercadoria útil e verdadeiramente indispensável. 

 O vendedor infatigável apregoa: 
— "O melhor divertimento para as crianças!" 
E em torno do homem loquaz os menininhos pobres 
fazem um círculo inamovível de desejo e espanto

Manuel Bandeira.

O mês de Junho está a chegar ao fim e com ele a minha homenagem às crianças; escolhi este poema que nos mostra que é preciso muito pouco para fazer uma criança feliz, basta um balão colorido para que os seus olhinhos brilhem de contentamento. Infelizmente há milhares por esse mundo fora que não conseguem ter a alegria de correr pela rua, segurando  um balãozinho.

Emília Pinto  

domingo, 19 de junho de 2022

O MENINO POBRE

 

Este menino vende doces na rua para que o seu pai ( cadeirante ) não precise de trabalhar ao sol 
-imagem da net



Crianças em destaque, novamente, aqui no Começar de Novo mas, desta vez vou tratar um tema que muito sensibiliza  todos os que se preocupam com estes seres que tanto sofrem, o trabalho Infantil 
 

Criança não pode trabalhar, criança tem de brincar, criança tem de frequentar a escola
Concordo, em absoluto que é assim que tem de ser

Amigos, depois de ter lido a crónica da nossa Amiga Taís Luso - Porto das crónicas  que muito me sensibilizou, pedi-lhe autorização para transcrever partes do texto que me deixou de lágrimas nos olhos, não só por já ter enfrentado essa situação, mas também por, de certeza, agir da mesma forma
Como podem ver na imagem que escolhi, esta criança está feliz, apesar do trabalho e o " MENINO POBRE " que abordou a nossa Amiga, com certeza ficou com os  os olhinhos a brilhar de felicidade

." Estávamos nós três, Pedro, Alexandre e eu numa cafeteria, quando entrou um menino, pequenino, devia ter uns 6 ou 7 aninhos e com uma pequena pilha de panos de prato (panos de copa) oferecendo nas mesas. Muito seguro e tranquilo, com postura de homenzinho, chamou muito a nossa atenção. Chegou na nossa mesa, ofereceu os paninhos: 3 por 20,00 - disse ele. Eu agradeci, pois mexer em dinheiro, tomando cafezinho e comendo os pãezinhos de queijo, não daria! Ele me fitou e disse:

– Mas aceito PIX! ( pagamento instantâneo ao banco...)

Saímos da porta da cafeteria e lá fora estava o menino oferecendo os paninhos nas mesas que ficam debaixo dos guarda-sóis. Pensei em dar um dinheiro para ele sem pegar os paninhos, mas Alexandre me disse baixinho:

– Compra, mãe, ele vai se sentir melhor, está trabalhando! Não tira a dignidade dele! "

Comprei os paninhos, com dinheiro, sorri para a criança e dei um beijo no meu filho pela sua sensibilidade "

Obrigada Taís, muito obrigada Alexandre !

Este MENINO POBRE. assim como o da gravura acima, não estavam a pedir esmola, estavam a trabalhar e só queriam que o seu trabalho fosse valorizado .Têm de certeza muito amor e carinho em casa e entenderam que poderiam, de alguma forma, contribuir para que não lhes faltasse comida na mesa. Não é preciso muito para uma criança ser feliz

Também aprendi muito, Taís! Obrigada

Espero que gostem, Amigos

Emília Pinto 


 

terça-feira, 14 de junho de 2022

DE NOVO , AS CRIANÇAS

 imagem pixabay


Algumas proposições com crianças

A criança está completamente imersa na infância 
a criança não sabe que há-de fazer da infância 
a criança coincide com a infância 
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono 
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar 
a infância é o elemento da criança 
como a água é o elemento próprio do peixe 
a criança não sabe que pertence à terra 
a sabedoria da criança é não saber que morre 
a criança morre na adolescência 
Se foste criança diz-me a cor do teu país 
Eu te digo que o meu era da cor do bibe 
e tinha o tamanho de um pau de giz 
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez 
Ainda hoje trago os cheiros no nariz 
Senhor que a minha vida seja permitir a infância 
embora nunca mais eu saiba como ela se diz 

 Ruy Belo, in 'Homem de Palavra[s]'  


Façamos a nossa parte para que as crianças possam viver a infância sem sofrimento

Emília Pinto

terça-feira, 7 de junho de 2022

EM LOUVOR......

...das Crianças 

Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso. A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue. O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus.


Eugénio de Andrade, in 'Rosto Precário

 "Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos."


Esta frase em negrito basta, não é preciso dizer mais nada
Só quero dizer que vou dedicar às crianças este mês de Junho,

Emília Pinto 

quarta-feira, 1 de junho de 2022

SER CRIANÇA

 Imagem da net


Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto. Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação. Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores. 



 Manoel de Barros, in 'Memórias inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros


Hoje, dia internacional da criança, escolhi este texto  pela ternura e simplicidade- É muito fácil fazer uma criança feliz e Manoel de Barros mostra-nos isso neste pequeno relato da sua infância

Lembremos, hoje e sempre as crianças que sofrem  todo o tipo de violência e que, apesar da riqueza do mundo em geral, ainda morrem de fome

Emília Pinto


quinta-feira, 19 de maio de 2022

AINDA....MAIO

 

Soneto de Maio


Suavemente Maio se insinua 
Por entre os véus de Abril, o mês cruel 
E lava o ar de anil, alegra a rua 
Alumbra os astros e aproxima o céu. 

Até a lua, a casta e branca lua 
Esquecido o pudor, baixa o dossel 
E em seu leito de plumas fica nua 
A destilar seu luminoso mel. 

Raia a aurora tão tímida e tão frágil 
Que através do seu corpo transparente 
Dir-se-ia poder-se ver o rosto 

Carregado de inveja e de presságio 
Dos irmãos Junho e Julho, friamente 
Preparando as catástrofes de Agosto... 

 Ouro Preto, maio de 1967 Vinicius de Moraes


Achei muito interessante este poema de Vinicius, dedicado ao mês de Maio, aqui Primavera, lá Outono
Não o conhecia. Espero que gostem!

Não se assustem com " as catástrofes de Agosto ". Este mês não é do agrado do povo brasileiro e eu nunca entendi o motivo . Talvez  deixem aqui alguma explicação, quem sabe?

Emilia Pinto 

sexta-feira, 13 de maio de 2022

MAIO .....


" Estamos em maio, o mês das flores, o mês sagrado pela poesia. Não é sem emoção que o vejo entrar. Há em minha alma um renovamento; as ambições desabrocham de novo e, de novo, me chegam revoadas de sonhos. Nasci sob o seu signo, a treze, e creio que em sexta-feira; e, por isso, também à emoção que o mês sagrado me traz, se misturam recordações da minha meninice. Agora mesmo estou a lembrar-me que, em 1888, dias antes da data áurea, meu pai chegou em casa e disse-me: a lei da abolição vai passar no dia de teus anos. E de fato passou; e nós fomos esperar a assinatura no Largo do Paço. Na minha lembrança desses acontecimentos, o edifício do antigo paço, hoje repartição dos Telégrafos, fica muito alto, um sky-scraper; e lá de uma das janelas eu vejo um homem que acena para o povo. Não me recordo bem se ele falou e não sou capaz de afirmar se era mesmo o grande Patrocínio. Havia uma imensa multidão ansiosa, com o olhar preso às janelas do velho casarão. Afinal a lei foi assinada e, num segundo, todos aqueles milhares de pessoas o souberam. A princesa veio à janela. Foi uma ovação: palmas, acenos com lenço, vivas... Fazia sol e o dia estava claro. Jamais, na minha vida, vi tanta alegria. Era geral, era total; e os dias que se seguiram, dias de folganças e satisfação, deram-me uma visão da vida inteiramente festa e harmonia. Houve missa campal no Campo de São Cristóvão. Eu fui também com meu pai; mas pouco me recordo dela, a não ser lembrar-me que, ao assisti-la, me vinha aos olhos a "Primeira Missa", de Vítor Meireles. Era como se o Brasil tivesse sido descoberto outra vez... Houve o barulho de bandas de música, de bombas e girândolas, indispensável aos nossos regozijos; e houve também préstitos cívicos. Anjos despedaçando grilhões, alegorias toscas passaram lentamente pelas ruas. Construíram-se estrados para bailes populares; houve desfile de batalhões escolares e eu me lembro que vi a princesa imperial, na porta da atual Prefeitura, cercada de filhos, assistindo àquela fieira de numerosos soldados desfiar devagar. Devia ser de tarde, ao anoitecer....


  Parte de um texto de Lima Barreto in O portal da literatura Afro- Brasileira 


 Achei interessante este texto, pois desconhecia que a Lei Áurea tinha sido assinada no mês de Maio pela princesa Isabel que, como primeira senadora do Brasil, financiava a alforria dos escravos, com o seu próprio dinheiro, antes de assinar a lei. Era conhecida como  A Redentora


 Infelizmente, ainda há muito trabalho escravo por esse mundo fora


Emília Pinto

segunda-feira, 2 de maio de 2022

MAIO.....

imagem pixabay

... CHUVOSO


Deste lado oiço gotejar
sobre as pedras
Som da cidade...
Do outro via a chuva no ar
Perpendicular, fina
tomava cor,
distinguia-se
contra o fundo das trepadeiras
do jardim. 
No chão, quando caía
abria círculos
nas pocinhas brilhantes
já formadas 
Há lá coisa mais linda
que este bater de água
na outra água?

Um pingo cai
e forma uma rosa...
um movimento circular, 
que se espraia.
Vem outro pingo
E nasce outra rosa...
e sempre assim!

Os nossos olhos desconsolados, 
sem alegria nem tristeza,
tranquilamente
vão vendo formar-se as rosas,
brilhar
e mover-se a água...

Irene Lisboa, in Antologia poética


Admirar as pequenas coisas,  tão belas, da natureza, com certeza traz mais luz aos nossos dias, principalmente quando as desgraças que vemos pelo mundo nos deixam abalados

Emília Pinto 






sexta-feira, 22 de abril de 2022

CÂNTICO......

   ...... da Esperança 


Não peça eu nunca
para me ver livre de perigos
Mas coragem para enfrentá-los

Não queira eu
que se apaguem minhas dores
mas que saiba dominá-las
no meu coração

Não procure eu amigos
no campo de batalha da vida
mas ter forças dentro de mim

Não deseje eu ansiosamente
ser salvo
mas ter esperanças
para conquistar pacientemente minha liberdade

Não seja eu tão cobarde, Senhor
que deseje a tua misericórdia
no meu triunfo
mas apertar a tua mão
no meu fracasso


Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"

Abril é para nós. portugueses, um mês muito importante.  Foi, o dia 25 de 1974. como que um " Cântico de Esperança ", o fim da ditadura e  o começo de um novo tempo , tempo de esperança numa liberdade " pacientemente conquistada e que, esperemos, seja  duradoura

Emília Pinto

terça-feira, 12 de abril de 2022

LIBERDADE

 Imagem pixabay



Pensamos de Mais e Sentimos de Menos


Queremos todos ajudar-nos uns aos outros. Os seres humanos são assim. 
Queremos viver a felicidade dos outros e não a sua infelicidade. Não queremos odiar nem desprezar ninguém. Neste mundo há lugar para toda a gente. E a boa terra é rica e pode prover às necessidades de todos. O caminho da vida pode ser livre e belo, mas desviámo-nos do caminho. A cupidez envenenou a alma humana, ergueu no mundo barreiras de ódio, fez-nos marchar a passo de ganso para a desgraça e a carnificina. Descobrimos a velocidade, mas prendemo-nos demasiado a ela. A máquina que produz a abundância empobreceu-nos. A nossa ciência tornou-nos cínicos; a nossa inteligência, cruéis e impiedosos. Pensamos de mais e sentimos de menos. Precisamos mais de humanidade que de máquinas. Se temos necessidade de inteligência, temos ainda mais necessidade de bondade e doçura. Sem estas qualidades, a vida será violenta e tudo estará perdido. O avião e a rádio aproximaram-nos. A própria natureza destes inventos é um apelo à fraternidade universal, à união de todos. Neste momento, a minha voz alcança milhões de pessoas através do mundo, milhões de homens sem esperança, de mulheres, de crianças, vítimas dum sistema que leva os homens a torturar e a prender pessoas inocentes. Àqueles que podem ouvir-me, digo: Não desesperem. A desgraça que nos oprime não provém senão da cupidez, do azedume dos homens que têm receio de ver a humanidade progredir. O ódio dos homens há-de passar, e os ditadores morrem, e o poder que tiraram ao povo, o povo retomá-lo-à. Enquanto os homens morrerem, a liberdade não perecerá


 Charles Chaplin, in 'Discurso final de «O Grande Ditador»


Este magnífico texto descreve, na perfeição, os sentimentos do ser humano, não acham, Amigos? Grande CHARLES CHAPLIN!

Emília Pinto

segunda-feira, 4 de abril de 2022

GENTE

 




 Imagem da net

 

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco 

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis 

Faz renascer meu gosto 
De luta e de combate 
Contra o abutre e a cobra 
O porco e o milhafre 

Pois a gente que tem 
O rosto desenhado 
Por paciência e fome 
É a gente em quem 
Um país ocupado 
Escreve o seu nome 

E em frente desta gente 
Ignorada e pisada 
Como a pedra do chão 
E mais do que a pedra 
Humilhada e calcada 

Meu canto se renova 
E recomeço a busca 
De um país liberto 
De uma vida limpa 
E de um tempo justo 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia

Infelizmente, o povo não é protegido pelos seus dirigentes, mas antes , esmagado, pisado  como vemos um pouco por todo o lado. E todos esperamos " Um tempo justo " que tarda a chegar

Emília Pinto

quarta-feira, 23 de março de 2022

PAZ

imagem pixabay


A PAZ EXISTE? 


"Enchem a boca de paz, e não há tal paz no mundo. E senão, quem há tão cego, que não veja o mesmo hoje em toda a parte? 
Dizem que há paz nos reinos, e os vassalos não obedecem aos reis: 
dizem que há paz nas cidades, e os súbditos não obedecem aos magistrados:
dizem que há paz nas famílias, e os filhos não obedecem aos pais: 
dizem que há paz nos particulares, e cada um tem dentro em si mesmo a maior e a pior guerra. 
Havia de mandar a razão, e o racional não lhe obedece; porque nele, e sobre ela domina o apetite. (...) 
A paz do mundo é guerra que se esconde debaixo da paz.
Chama-se paz e é lisonja: chama-se paz, e é dissimulação: chama-se paz, e é dependência: chama-se paz, e é mentira, quando não seja traição.” 

 Padre Antônio Vieira, in Sermões

Será que o Padre António Vieira não tem razão? Como queremos Paz no mundo se, tantas vezes, nas famílias, há guerras tremendas?

Mesmo sabendo que é uma utopia, quero muito que a Paz reine no mundo e que esta, bem perto de nós, acabe depressa

Emília Pinto

domingo, 13 de março de 2022

GUERRA

 

 Imagem pixabay



Desfilam diante de mim as civilizações guerreiras... 
As civilizações guerreiras de todos os tempos e lugares... 
Num panorama confuso e lúcido,
Em quadras misturadas e não misturadas, separadas e compactas, mas só quando  
Em desfile sucessivo e apesar disso ao mesmo tempo, 
Passm......

Passam e eu, eu que estou estendido na erva
E vi os carros passarem, passarem — cessarem depois para nós mesmos 
Vejo-os e o meu espanto nem é muito calmo nem interessado 
Nem os vê nem os deixa de ver, 
E eles passam por mim como um pó ou leve vento sobe pelos ares. 

Ah a pompa antiga, e a pompa moderna, os uniformes dos engenhos de guerra, 
A fúria terna e [...] dos combates 
Os mortos sempre a mesma misteriosa vida — o corpo no chão (e o que é o mundo, afinal, e aonde?) 

A ferida [...] E o céu, o eterno céu insensível sobre isso tudo! 


 Fernando Pessoa


E a guerra continua ....insana, esperando nós que a paz volte à Ucrânia o mais depressa possível

Emília Pinto

sexta-feira, 4 de março de 2022

ERA? NÃO FOI...NEM É...

 

imagem pixabay







Ocaso do século 


Era para ter sido melhor que os outros o nosso século XX. 
Agora já não tem mais jeito, 
os anos estão contados, 
os passos vacilantes, 
a respiração curta. 

Coisas demais aconteceram, 
que não eram para acontecer, 
e o que era para ter sido não foi. 

Era para se chegar à primavera e à felicidade, 
entre outras coisas. 

Era para o medo deixar os vales e as montanhas. 
Era para a verdade atingir o objetivo 
mais depressa que a mentira 

Era para já não mais ocorrerem algumas desgraças: 
a guerra por exemplo, e a fome e assim por diante. 

Era para ter sido levada sério a fraqueza dos indefesos, 
a confiança e similares. 

Quem quis se alegrar com o mundo 
depara com uma tarefa de execução impossível. 

A burrice não é cômica. 
A sabedoria não é alegre. 
A esperança já não é aquela bela jovem et cetera, 
infelizmente. 

Era para Deus finalmente crer no homem bom e forte 
mas bom e forte são ainda duas pessoas. 
Como viver — me perguntou alguém numa carta, 
a quem eu pretendia fazer a mesma pergunta. 

De novo e como sempre, como se vê acima, 
não há perguntas mais urgentes 
do que as perguntas ingênuas.


Wislawa Szimborsk


Infelizmente, passam os séculos e nada muda

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

O FIM E O COMEÇO


 

Depois de cada guerra 
alguém tem que fazer a faxina. 
Colocar uma certa ordem 
que afinal não se faz sozinha. 

Alguém tem que jogar 
o entulho para o lado da estrada 
para que possam passar os carros 
carregando os corpos. 

 Alguém tem que se atolar 
no lodo e nas cinzas
em molas de sofás     
em cacos de vidro 
e em trapos ensanguentados. 

Alguém tem que arrastar a viga 
para apoiar a parede, 
pôr a porta nos caixilhos, 
envidraçar a janela. 
A cena não rende foto e leva anos.
        
E todas as câmeras 
já debandaram para outra guerra. 
As pontes têm que ser refeitas, 
e também as estações. 

De tanto arregaçá-las, 
as mangas ficarão em farrapos. 
Alguém de vassoura na mão 
ainda recorda como foi. 

Alguém escuta 
meneando a cabeça que se safou. 
Mas ao seu redor 
já começam a rondar 
os que acham tudo muito chato. 

Às vezes alguém desenterra 
de sob um arbusto velhos 
argumentos enferrujados 
e os arrasta para o lixão. 

Os que sabiam o que aqui se passou 
devem dar lugar àqueles que pouco sabem. 
Ou menos que pouco. 
E por fim nada mais que nada. 

Na relva que cobriu as causas e os efeitos 
alguém deve se deitar
com um capim entre os dentes
e namorar as nuvens 


 Wislawa Szymborsk


 Quem foi ? Wisława Szymborska, Maria Wisława Anna Szymborska (Kórnik, 2 de julho de 1923 — Cracóvia, 1 de fevereiro de 2012) foi uma escritora polaca galardoada com o Prémio Nobel na área de literatura (1996). Poetisa, crítica literária e tradutora, viveu em Cracóvia, onde se formou em Filologia Polaca e Sociologia pela Universidade Jaguellonica. A sua extensa obra, traduzida em 36 línguas, foi caracterizada pela Academia de Estocolmo como «uma poesia que, com precisão irónica, permite que o contexto histórico e biológico se manifeste em fragmentos da realidade humana», tendo sido a poetisa definida, como «o Mozart da poesia» "


Depois de uma guerra alguém tem de fazer uma faxina... " Mas será que há tempo? Elas sucedem -se , sem intervalos e agora temos mais uma; impossível " colocar uma certa ordem " tamanho é o " entulho " acumulado

 A nossa solidariedade com o povo da Ucrânia e com todos os outros povos que vivem em guerra

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

TALENTO......


 Imgem da net

 
.... não é Sabedoria


Deixa-me dizer-te francamente o juízo que eu formo do homem transcendente em génio, em estro, em fogo, em originalidade, finalmente em tudo isso que se inveja, que se ama, e que se detesta, muitas vezes. O homem de talento é sempre um mau homem. Alguns conheço eu que o mundo proclama virtuosos e sábios. Deixá-los proclamar. O talento não é sabedoria. Sabedoria é o trabalho incessante do espírito sobra a ciência. O talento é a vibração convulsiva de espírito, a originalidade inventiva e rebelde à autoridade, a viagem extática pelas regiões incógnitas da ideia. Agostinho, Fénelon, Madame de Staël e Bentham são sabedorias. Lutero, Ninon de Lenclos, Voltaire e Byron são talentos. Compara as vicissitudes dessas duas mulheres e os serviços prestados à humanidade por esses homens, e terás encontrado o antagonismo social em que lutam o talento com a sabedoria. Porque é mau o homem de talento ? Essa bela flor porque tem no seio um espinho envenenado ? Essa esplêndida taça de brilhantes e ouro porque é que contém o fel, que abrasa os lábios de quem a toca ? Aqui tens um tema para trabalhos superiores à cabeça de uma mulher, ainda mesmo reforçada por duas dúzias de cabeças académicas ! Lembra-me ouvir dizer a um doido que sofria por ter talento. Pedi-lhe as circunstâncias do seu martírio sublime, e respondeu-me o seguinte com a mais profunda convicção, e a mais tocante solenidade filosófica : os talentos são raros, e os estúpidos são muitos. Os estúpidos guerreiam barbaramente o talento : são os vândalos do mundo espiritual. O talento não tem partido nesta peleja desigual. Foge, dispara na retirada um tiroteio de sarcasmos pungentes, e, por fim, isola-se, segrega-se do contacto do mundo, e curte em silêncio aquele fel de vingança, que, mais cedo ou mais tarde, cospe na cara de algum inimigo, que encontra desviado do corpo do exército. Aí tem a razão por que o homem de talento é perigoso na sociedade. O ódio inspira-lhe a eloquência da traição.



 Camilo Castelo Branco, in 'Coisas que Só eu Sei'



Não seria tão radical como o nosso grande Camilo Castelo Branco, mas concordo que talento não seja sinónimo de sabedoria. Acho que os dois têm de caminhar juntos, Uma pessoa com um talento especial, torna- se muitas vezes mundialmente conhecida e. se não tiver sabedoria para lidar com essa fama corre o risco de se tornar um ser arrogante e prepotente, isolando-se, forçosamente,  do mundo

Gostaria de saber a vossa opinião, Amigos.... Pode ser?

Emília Pinto


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

PARABÉNS AOS MEUS AMIGOS!

 


Sim, são  os meus Amigos que estão de parabéns, Amigos que tenho conquistado ao longo destes 13 anos de Começar de Novo;  agradeço todo o carinho recebido e espero continuar a merecer a vossa amizade , Sem a  colaboração de todos, com  certeza, não teria chegado até aqui. Dedico- vos estas belas palavras de Miguel Torga, já que não posso dizê-las a cada um de vós, pessoalmente



"Que belo é ter um amigo! 
Ontem eram ideias contra ideias. 
Hoje é este fraterno abraço a afirmar que acima das ideias estão os homens. 
Um sol tépido a iluminar a paisagem de paz
onde esse abraço se deu, forte e repousante. 
Que belo e que natural é ter um amigo!" 

 Diário (1935)


" Hoje é este fraterno abraço " que vos deixo, mas aqui fica também, para sempre, o meu agradecimento e a minha sincera Amizade. PARABÉNS !


Emília Pinto

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

GENEROSIDADE

 

A primeira prática para se atingir a perfeição é a Generosidade ("Dana"). 
Dar significa, primeiro, oferecer Alegria, Felicidade e Amor.
Existe uma planta, muito conhecida na Ásia - um membro da família das cebolas, que fica deliciosa nas sopas, no arroz frito e nas omeletes - que a cada vez que a cortamos torna a crescer em vinte e quatro horas. E quanto mais se corta essa planta, maior e mais forte ela cresce. 
A planta representa a Generosidade. Não guardamos nada para nós. Apenas queremos dar.Talvez a outra pessoa se sinta feliz com isso, mas com certeza os maiores beneficiados seremos nós mesmos. Quer você dê sua presença, sua estabilidade, sua paz, sua leveza, sua firmeza, sua liberdade, ou sua compreensão, sua dádiva fará milagres. A Generosidade é a prática do Amor.


Thich Nhat Hanh 


Quem foi?

Nascido como Nguyễn Xuân Bảo, foi um dos mestres do zen-budismo mais conhecidos e respeitados no mundo de hoje, poeta e ativista da paz e dos direitos humanos. Nascido na região central do Vietnã, ele se juntou aos monges na idade de dezasseis anos. Por ocasião da Guerra do Vietnã, os mosteiros se defrontaram com a questão de aderir ou não, exclusivamente, à vida contemplativa e continuar a meditar nos mosteiros, ou ajudar a população que sofria sob bombardeios e outras devastações da guerra. Nhat Hanh foi um dos que optaram por fazer as duas coisas, ajudando a fundar o movimento do budismo engajado. Desde então, dedicou sua vida ao trabalho de transformação interior para o benefício dos indivíduos e da sociedade.


Conheci este Senhor pela notícia da sua morte, a 22 de Janeiro, com 95 anos
Fiquei curiosa e fui pesquisar. Não conhecia  o Budismo engajado, movimento  que ele ajudou a fundar. Creio que em qualquer sociedade é necessário que todos os lideres religiosos pensem também em ajudar  aqueles que precisam. Não basta orar!


Emília Pinto

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

NO MEU TEMPO......

 Imagem da net


...... não Era Assim 


Ficar velho deve ser, presumimos, ficar preso a noções e ambições que constituíram a aposta do tempo da juventude. Mas as pessoas esquecem que, enquanto vão aplicando essas noções e ambições, outras pessoas nascem e se fazem homens, tendo do mundo uma visão diferente. E é a visão mais recente - até que outra mais nova ainda a venha substituir - que garante a sobrevivência espiritual e material do homem no mundo. Assim, aos que se não encontram em estado de vigilante disponibilidade será recusada a compreensão sempre refeita da realidade. É essa mesma massa humana que se torna um peso para o próprio desejo humano de progressão, que se faz obstáculo ao dinamismo natural da vida. Por mais argumentos que julgue encontrar, a velhice nunca tem razão. Não há plano de realidade, nem tipo de actividade, onde isto não seja assim. (…) O mal das sociedades que se orgulham de uma grande tradição cultural é que supõem haver encontrado a forma definitiva de resolver os problemas todos. Passa-lhes desapercebida a qualidade dinâmica da realidade e a exigência que esse mesmo dinamismo tem de instrumento, que da tradição apenas aproveitem aquilo que não morreu e que normalmente é muito menos do que se pensa. Em todos os domínios, há Velhos do Restelo, que ficam à borda de água meneando sabichonamente a cabeça e falando da loucura do mundo.

 Dizem eles: no meu tempo não era assim. Pois não era, senhores cadáveres.


 Herberto Heldér

Infelizmente, confesso... até eu já disse essa  " asneira ". Temos muito a ensinar, certo,  mas também muito a aprender com as novas gerações.  Vivamos o momento sem nos" armarmos " em sabichões!


Emília Pinto



sábado, 1 de janeiro de 2022

MENSAGEM - 2022

 


A opção pacífica perde o sentido se não tem a possibilidade de ser eficaz. A violência é inquietante e inaceitável. Até mesmo, num único caso de homicídio, já é um caso de morte a mais do que podemos aceitar. 
Não  há lugar para neutralidade. Quando você diz que é neutro em relação a uma injustiça ou opressão, você decidiu apoiar o status quo do injusto. 
Não queremos ser amados por sermos bons. Somos bons porque somos amados. 
Quando você se recusa a partilhar alguma coisa, corre o risco de perder tudo. 
Se você fica neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor


Desmond Tutu


Nada mudará neste novo ano que começa se não houver mudanças na mentalidade do ser humano. Façamos a nossa parte, escolhendo sempre o lado da justiça.

Saúde , Amigos, agora e sempre!