segunda-feira, 11 de outubro de 2021

POVO

 





Não quero sentir a solidão  
e a distância de meu povo. 
Não quero sentir medo 
nem ver o medo que o povo sente.
Quero sentir o povo unido
Quero vê-lo de mãos dadas, 
construindo um mundo sem fome
sem guerras e cheio de rosas. 
Quero ver o povo sendo povo


Que aqueles que vivem da ilusão,
ouvindo o seu próprio eco, 
desçam dos tronos porque a alegria 
dos reis, imperadores e ditadores 
só existe na fantasia. 
 – Que todos sejam apenas povo

Sérgio Mattos. 1979


Conheci este escritor brasileiro através do blog da nossa Amiga Tais Luso  - Porto das Crónicas onde ela publicou um belo poema de Sergio Mattos. Fui pesquisar e encontrei  outros trabalhos poéticos que me agradaram . Escolhi este para partilhar com os meus amigos Espero que gostem

Obrigada Taís!


Se  dermos as mãos, se soubermos ser um povo unido, com certeza , a vida será mais fácil para todos

Emília Pinto

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

OUTONO

 


FAMÍLIA DESENCONTRADA

O Verão é um senhor gordo, sentado na varanda, 
suando em bicas e reclamando cerveja. 

 O Outono é um tio solteirão que mora lá em cima no sótão e a toda hora protesta aos gritos: 
"Que barulho é este na escada?!" 

 O Inverno é o vovozinho trêmulo, 
com a boina enterrada até os olhos, 
a manta enrolada nos queixos e sempre resmungando: 
"Eu não passo deste agosto, eu não passo deste agosto..."

 A Primavera, em contrapartida - é ela quem salva a honra da família!
é uma menininha pulando na corda 
cabelos ao vento pulando e cantando 
debaixo da chuva 
curtindo o frescor da chuva que desce do céu 
o cheiro da terra que sobe do chão 
o tapa do vento cara molhada! 
 
Oh! a alegria do vento desgrenhando as árvores 
revirando os pobres guarda-chuvas 
erguendo saias! 
A alegria da chuva a cantar nas vidraças sob as vaias do vento... 
Enquanto - desafiando o vento, 
a chuva, desafiando tudo - no meio da praça 
a menininha canta 
a alegria da vida 
a alegria da vida!

Mário Quintana


Há muito que dizemos que as estações do ano estão bastante " baralhadas ", devido  às alterações climáticas  e aqui, neste poema, vemos Mário Quintana, com bastante humos a falar desta " família ", onde ninguém se entende. Também nós, reclamamos sempre...nunca estamos satisfeitos com o clima.

Achei muito engraçado este poema, Amigos! 

Emília Pinto

terça-feira, 21 de setembro de 2021

CONTINUAR....QUE ACHAM?

 

Também dizia ela  : " Minha mãe sempre costurou a vida com fios de ferro "


e, como há muitas  mulheres, muitas mães que ainda têm de" costurar a vida  com fios de ferro ", achei que valia a pena partilhar mais este belo poema de Conceição Evaristo


DE MÃE

 

O cuidado de minha poesia 
aprendi foi de mãe, 
mulher de pôr reparo nas coisas, 
e de assuntar a vida. 

A brandura de minha fala 
na violência de meus ditos 
ganhei de mãe, 
mulher prenhe de dizeres, 
fecundados na boca do mundo. 

Foi de mãe todo o meu tesouro 
veio dela todo o meu ganho 
mulher sapiência, yabá, 
do fogo tirava água 
do pranto criava consolo. 

Foi de mãe esse meio riso
dado para esconder 
alegria inteira


Espero que gostem e que me desculpem a repetição.

Emília Pinto

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

VOZES - MULHERES

 

 


 A voz de minha bisavó
 ecoou criança 
nos porões do navio. 
ecoou lamentos 
de uma infância perdida. 

 A voz de minha avó 
ecoou obediência 
aos brancos-donos de tudo. 

 A voz de minha mãe 
ecoou baixinho revolta 
no fundo das cozinhas alheias 
debaixo das trouxas 
roupagens sujas dos brancos 
pelo caminho empoeirado 
rumo à favela. 

 A minha voz ainda ecoa 
versos perplexos
 com rimas de sangue e fome.  

A voz de minha filha 
recolhe todas as nossas vozes 
recolhe em si 
as vozes mudas 
caladas engasgadas nas gargantas. 

A voz de minha filha 
recolhe em si a fala e o ato. 
O ontem – o hoje – o agora. 

Na voz de minha filha 
se fará ouvir a ressonância 
o eco da vida-liberdade.


Conceição Evaristo
In Cultura Genial


Infelizmente, ainda hoje a mulher negra sofre muito, em todos os aspectos . O preconceito continua

Não conhecia Conceição Evaristo, mas, por um feliz acaso, encontrei este belo poema e resolvi partilhar. Achei-o pertinente, já que muito nos tem preocupado a  situação dramática em que vivem as mulheres do Afeganistão

Emília Pinto

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

UTOPIA


 

Quero a utopia, quero tudo e mais 
Quero a felicidade nos olhos de um pai 
Quero a alegria muita gente feliz 
Quero que a justiça reine em meu país 
Quero a liberdade, quero o vinho e o pão 
Quero ser amizade, quero amor, prazer 
Quero nossa cidade sempre ensolarada 
Os meninos e o povo no poder, eu quero ver São José da Costa Rica, coração civil 
Me inspire no meu sonho de amor Brasil 
Se o poeta é o que sonha o que vai ser real 
Vou sonhar coisas boas que o homem faz 
E esperar pelos frutos no quintal 
Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço pra ter poder? 
Viva a preguiça, viva a malícia que só a gente é que sabe ter 
Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida 
Eu vou viver bem melhor 
Doido pra ver o meu sonho teimoso, um dia se realizar

Milton Nascimento


"Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida 
Eu vou viver bem melhor 
Doido pra ver o meu sonho teimoso, um dia se realizar"

 Acreditemos ! Viveremos melhor se tivermos esperança !

Emilia Pinto      

sexta-feira, 30 de julho de 2021

FÉRIAS

 

Imagem da net


 Hoje, venho falar das férias: é o tempo delas, como se diz que é o tempo das cerejas. Outra árvore dá estes frutos, e a mesma árvore os arranca: os dias as trazem até nós, os dias as levam. Neste escoar se vai o tempo, mas enquanto as férias se aproximam tudo é desejá-las, fazer projectos, embalar ilusões. Chegado o dia, temos diante de nós um espaço vazio à espera, como uma grande sala que é preciso habitar. Que vamos pôr lá dentro?
Há quem passe uns dias na terra, quem se atreva ao estrangeiro, quem conte os escudos para o toldo da praia. Há também quem não saia de casa e fique a ver, todas as horas do dia, a rua onde mora. 
Seja como for, os dias de férias ganham de repente um valor que os outros não tiveram. São dias totalmente disponíveis, à mercê da imaginação e das posses de cada qual. 
O tempo desligou-se da mecânica do relógio, é uma dimensão não delimitada, informe, um pedaço de barro diante das mãos que o vão modelar. As férias são também uma obra de criação. Não espanta, portanto, que no limiar delas um súbito temor nos intimide. Aquele intervalo entre duas representações, aquela clareira rodeada de floresta negra por todos os lados — que iremos nós fazer do barro do tempo?
( parte do texto )

José Saramago, in  Deste mundo e do Outro

Não sei o que o Começar de novo vai fazer, não sei para onde vai. Pedi-lhe que tomasse as devidas precauções que usasse sempre a máscara e não se metesse em confusões. Não quero que volte com a mala cheia de virus. 
Quanto a mim, Amigos, não irei para longe e portanto , sempre que possível, far-vos-ei uma visitinha. Prometi ao Começar de Novo que o deixaria sossegado até Setembro para que possa aproveitar bem as férias

 Deixo a todos vós um abraço e votos de que tenham umas boas férias, especialmente com saúde

Emília Pinto


quarta-feira, 14 de julho de 2021

RETALHOS

 

Imagem pixabay


 Sou feita de retalhos.

 Pedacinhos coloridos de cada vida que passa pela minha e que vou costurando na alma. 
Nem sempre bonitos, nem sempre felizes, mas me acrescentam e me fazem ser quem eu sou. 
Em cada encontro, em cada contato, vou ficando maior... 
Em cada retalho, uma vida, uma lição, um carinho, uma saudade...
Que me tornam mais pessoa, mais humana, mais completa. 
 
E penso que é assim mesmo que a vida se faz: 
de pedaços de outras gentes que vão se tornando parte da gente também. 
E a melhor parte é que nunca estaremos prontos, finalizados... 
Haverá sempre um retalho novo para adicionar a alma. 

Portanto, obrigada a cada um de vocês, que fazem parte da minha vida e que me permitem engrandecer
minha história com os retalhos deixados em mim. 
Que eu também possa deixar pedacinhos de mim pelos caminhos e que eles possam ser parte das suas
histórias. 
E que assim, de retalho em retalho, possamos nos tornar, um dia, um imenso bordado de "nós"


 Cris Pizzimenti


Este poema é muitas vezes atribuído a Cora Coralina., mas, parece que é desta autora.  Seja de quem for, gostei muito dele  e pareceu- me ser uma continuação das palavras de Rubem  Alves, na minha publicação anterior. Afinal, se deixarmos em nós, um " pedacinho " vazio para escutar o outro, vamos  a cada encontro, a cada contato ficando maiores "


Emília Pinto