sábado, 14 de abril de 2018

TERRA ADUBADA

imagem retirada da net


 Por detrás das árvores não se escondem faunos, não.
 Por detrás das árvores escondem-se os soldados
 com granadas de mão

.
 As árvores são belas com os troncos dourados.
São boas e largas para esconder soldados.

 Não é o vento que rumoreja nas folhas,
 não é o vento, não.
São os corpos dos soldados rastejando no chão.

 O brilho súbito não é do limbo das folhas verdes reluzentes.
 É das lâminas das facas que os soldados apertam entre os dentes.

 As rubras flores vermelhas não são papoilas, não.
 É o sangue dos soldados que está vertido no chão.

 Não são vespas, nem besoiros, nem pássaros a assobiar.
 São os silvos das balas cortando a espessura do ar.

 Depois os lavradores
 rasgarão a terra com a lâmina aguda dos arados,
e a terra dará vinho e pão
e flores adubada com os corpos dos soldados.

 António Gedeão, in 'Linhas de Força'


E assim será sempre!!! O ser humano não desiste do PODER, imfelizmente

Emília Pinto

terça-feira, 3 de abril de 2018

NOBRE PATRIOTISMO....

Imagem- pixabay


 Há em primeiro lugar o nobre patriotismo dos patriotas: esses amam a pátria, não dedicando-lhe estrofes, mas com a serenidade grave e profunda dos corações fortes. Respeitam a tradição, mas o seu esforço vai todo para a nação viva, a que em torno deles trabalha, produz, pensa e sofre: e, deixando para trás as glórias que ganhámos nas Molucas, ocupam-se da pátria contemporânea, cujo coração bate ao mesmo tempo que o seu, procurando perceber-lhe as aspirações, dirigir-lhe as forças, torná-la mais livre, mais forte, mais culta, mais sábia, mais próspera, e por todas estas nobres qualidades elevá-la entre as nações. Nada do que pertence à pátria lhes é estranho: admiram decerto Afonso Henriques, mas não ficam para todo o sempre petrificados nessa admiração;
vão por entre o povo, educando-o e melhorando-o, procurando-lhe mais trabalho e organizando-lhe mais instrução, promovendo sem descanso os dois bens supremos - ciência e justiça. Põem a pátria acima do interesse, da ambição, da gloríola; e se têm por vezes um fanatismo estreito, a sua mesma paixão diviniza-os. Tudo o que é seu o dão à pátria: sacrificam-lhe vida, trabalho, saúde, força, o melhor de si mesmo. Dão-lhe sobretudo o que as nações necessitam mais, e o que só as faz grandes: dão-lhe a verdade. A verdade em tudo, em história, em arte, em política, nos costumes. Não a adulam, não a iludem; não lhe dizem que ela é grande porque tomou Calecute, dizem-lhe que é pequena porque não tem escolas. Gritam-lhe sem cessar a verdade rude e brutal. Gritam-lhe: - «Tu és pobre, trabalha; tu és ignorante, estuda; tu és fraca, arma-te! E quando tiveres trabalhado, estudado e armado, eu, se for necessário, saberei morrer contigo!» Eis o nobre patriotismo dos patriotas.


 Eça de Queirós, in 'Notas Contemporâneas'


Achei fabuloso este texto do nosso Eça de Queiroz e, se queremos ser verdadeiros PATRIOTAS,   deixemos que o " nosso esforço vá todo para a nação viva " e saibamos abraçar a verdade  e todos aqueles que dão o seu melhor para o bem da nossa "Pátria Contemporanêa ".

Emília Pinto

sexta-feira, 23 de março de 2018

O LIVRO




Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombrosos é, indubitavelmente, o livro.
Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço.
Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.
Em «César e Cleópatra» de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza. (...)
Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro.
O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.


 Jorge Luís Borges, in 'Ensaio: O Livro'


No mês de Março festejou-se o dia da MULHER, o dia do PAI; lembrou-se a POESIA, também a ÁRVORE e a PRIMAVERA começou;  eu pensei: Será que o LIVRO não cabe nestes festejos? Creio que sim!. Então...vamos falar dele?

Emília Pinto

quarta-feira, 14 de março de 2018

CORAÇÃO....





Quero a utopia, quero tudo e mais
Quero a felicidade nos olhos de um pai
Quero a alegria muita gente feliz
Quero que a justiça reine em meu país
Quero a liberdade, quero o vinho e o pão
Quero ser amizade, quero amor, prazer
Quero nossa cidade sempre ensolarada
Os meninos e o povo no poder, eu quero ver São José da Costa Rica, coração civil
Me inspire no meu sonho de amor Brasil
Se o poeta é o que sonha o que vai ser real
Bom sonhar coisas boas que o homem faz

E esperar pelos frutos no quintal
Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço, cadê poder ?
Viva a preguiça viva a malícia que só a gente é que sabe ter
Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida
Eu viver bem melhor

Doido pra ver o meu sonho teimoso,um dia se realizar


Lendo com atenção esta bela letra, pensei em dedicá-la aos meus amigos. Está muito perto o dia 19, dedicado aos pais deste país e o que um pai deseja para os seus filhos aqui, no Brasil ou em qualquer outro canto do mundo é uma sociedade muito melhor do que a que temos hoje.

Um abraço muito especial para os meus amigos e os votos de que eles continuem com a esperança de " ver o seu sonho teimoso, um dia se realizar."

Emília Pinto

domingo, 4 de março de 2018

MOTIVO




 Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço, — não sei, não sei.
Não sei se fico ou passo.
Sei que canto.

E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
mais nada

 Cecília Meireles


  Sei que ainda é cedo, mas, como gosto muito deste poema, aproveito para o dedicar às minhas amigas e também aos amigos que as acompanham. O dia 8 de Março, dia da Mulher foi criado para nos lembrar que há mulheres que nunca veem na vida MOTIVO para sorrir. Pensemos nelas!

Um beijinho

Emília Pinto

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

VAMOS RECORDAR ?




 Viver assim: sem ciúmes, sem saudades,
 Sem amor, sem anseios, sem carinhos.
 Livre de angústias e felicidades,
 Deixando pelo chão rosas e espinhos;

Poder viver em todas as idades;
Poder andar por todos os caminhos;
Indiferente ao bem e às falsidades,
Confundindo chacais e passarinhos;

Passear pela terra, e achar tristonho
Tudo que em torno se vê, nela espalhado;
A vida olhar como através de um sonho;

Chegar onde eu cheguei, subir à altura
Onde agora me encontro - é ter chegado
Aos extremos da Paz e da Ventura!

Antero de Quental in " Sonetos "

Para mim foi mesmo um " RECORDAR ", pois há muito, muito tempo não lia nada da obra deste nosso grande escritor. Espero que gostem!

Emília Pinto

domingo, 11 de fevereiro de 2018

AMIGOS,







E  a todos vós dedico este lindo poema de Aniversário


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família, E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças
.
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província, O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!... (Nem o acho... ) O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

 O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, Pondo grelado nas paredes...
 O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
 O que eu sou hoje é terem vendido a casa, É terem morrido todos,
 É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal, Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

 Pára, meu coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
 Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
 Hoje já não faço anos. Duro. Somam-se-me dias.
 Serei velho quando o for. Mais nada.
 Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...
 O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

 Álvaro de Campos

....e hoje é tempo de se festejar o dia dos anos  do COMEÇAR DE NOVO; já são nove anos de vida e os amigos continuam presentes, acarinhando-o e incentivando-o a continuar..Para vós vão os PARABÉNS e o meu abraço de grande amizade

Emilia Pinto