domingo, 2 de outubro de 2022

O OUTONO CONTINUA......

 

.....nesta CANÇÃO

No entardecer da terra, 
O sopro do longo outono 
Amareleceu o chão. 
Um vago vento erra, 
Como um sonho mau num sono, 
Na lívida solidão. 

Soergue as folhas, e pousa 
As folhas volve e revolve 
Esvai-se ainda outra vez. 
Mas a folha não repousa 
E o vento lívido volve 
E expira na lividez. 

Eu já não sou quem era; 
O que eu sonhei, morri-o; 
E mesmo o que hoje sou 
Amanhã direi: quem dera 
Volver a sê-lo! mais frio. 
O vento vago voltou. 

 Fernando Pessoa 

  ..." agora que a primavera adormeceu e o verão se foi embora, lembramo-nos de 3 poemas de outono do poeta que mais amou as palavras e as transformou em arte: Fernando Pessoa."
 in Wescribe 

Dos três, escolhi este, meus Amigos. Espero que gostem

A cada novo instante que a vida me dá, a cada novo outono também eu " já não sou quem era "

Emília Pinto 

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

CANÇÃO DE OUTONO

 

Imagem Pixabay 


Perdoa-me, folha seca, 
não posso cuidar de ti. 
Vim para amar neste mundo, 
e até do amor me perdi. 
De que serviu tecer flores 
pelas areias do chão 
se havia gente dormindo 
sobre o próprio coração? 

E não pude levantá-la! 
Choro pelo que não fiz. 
E pela minha fraqueza 
é que sou triste e infeliz. 
Perdoa-me, folha seca! 
Meus olhos sem força 
estão velando e rogando aqueles 
que não se levantarão... 

Tu és folha de outono 
voante pelo jardim. 
Deixo-te a minha saudade 
- a melhor parte de mim. 
E vou por este caminho, 
certa de que tudo é vão. 
Que tudo é menos que o vento, 
menos que as folhas do chão... 

 Cecília Maireles, Poesia Completa, vol. II


....tudo é vão....tudo é menos que o vento....menos que as folhas no chão... 

Valemos tão pouco e há quem pense ser dono do mundo!!!!

Emília Pinto

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

A RACIONALIDADE......

 

Imagem da net



 .....IRRACIONAL 

 Eu digo muitas vezes que o instinto serve melhor os animais do que a razão a nossa espécie. E o instinto serve melhor os animais porque é conservador, defende a vida. Se um animal come outro, come-o porque tem de comer, porque tem de viver; mas quando assistimos a cenas de lutas terríveis entre animais, o leão que persegue a gazela e que a morde e que a mata e que a devora, parece que o nosso coração sensível dirá «que coisa tão cruel». Não: quem se comporta com crueldade é o homem, não é o animal, aquilo não é crueldade; o animal não tortura, é o homem que tortura. Então o que eu critico é o comportamento do ser humano, um ser dotado de razão, razão disciplinadora, organizadora, mantenedora da vida, que deveria sê-lo e que não o é; o que eu critico é a facilidade com que o ser humano se corrompe, com que se torna maligno. Aquela ideia que temos da esperança nas crianças, nos meninos e nas meninas pequenas, a ideia de que são seres aparentemente maravilhosos, de olhares puros, relativamente a essa ideia eu digo: pois sim, é tudo muito bonito, são de facto muito simpáticos, são adoráveis, mas deixemos que cresçam para sabermos quem realmente são. E quando crescem, sabemos que infelizmente muitas dessas inocentes crianças vão modificar-se. E por culpa de quê? É a sociedade a única responsável? Há questões de ordem hereditária? O que é que se passa dentro da cabeça das pessoas para serem uma coisa e passarem a ser outra? Uma sociedade que instituiu, como valores a perseguir, esses que nós sabemos, o lucro, o êxito, o triunfo sobre o outro e todas estas coisas, essa sociedade coloca as pessoas numa situação em que acabam por pensar (se é que o dizem e não se limitam a agir) que todos os meios são bons para se alcançar aquilo que se quer. Falámos muito ao longo destes últimos anos (e felizmente continuamos a falar) dos direitos humanos; simplesmente deixámos de falar de uma coisa muito simples, que são os deveres humanos, que são sempre deveres em relação aos outros, sobretudo. E é essa indiferença em relação ao outro, essa espécie de desprezo do outro, que eu me pergunto se tem algum sentido numa situação ou no quadro de existência de uma espécie que se diz racional. Isso, de facto, não posso entender, é uma das minhas grandes angústias. 

 José Saramago, in 'Diálogos com José Saramago'


 O ser humano tem muito a aprender com os ditos animais irracionais, mas...não aprende nada e, creio, continuará assim.

Emília Pinto

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

FÉRIAS

 imagem da net



Queridos Amigos, como de costume, o Começar de Novo entra hoje, dia 1 de Agosto de férias e voltará em Setembro. Está já de mala pronta e, apesar de se ver um avião na imagem, não sei para onde vai. Não lhe pergunto, pois é livre de escolher o destino que quiser,

Eu, sim, vou ao Brasil, apesar da tristeza de não ter os meus pais à minha espera. A vida continua e temos de enfrentar a ausência daqueles que mais amamos. Não ficarei totalmente ausente, pois, sempre que puder, visitar-vos-ei.

Deixo- vos um abraço muito especial, desejando a todos um excelente Agosto e umas boas férias, especialmente com saúde, pois ela é o nosso bem mais preciosos. Muito obrigada pelo tanto de carinho que sempre dispensam a este meu cantinho


Emília Pinto 

quarta-feira, 13 de julho de 2022

O ÊXITO

 

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O êxito parece a melhor das coisas
A quem nunca venceu na vida. 
Ter a compreensão de um néctar
Exige a mais dolorosa necessidade. 

De entre o purpúreo Exército 
Que hoje empunhou a Bandeira 
Nenhum outro poderá dar uma tão clara 
Definição da Vitória 

Como o vencido - agonizante - 
Em cujo ouvido interdito 
A distante ária triunfal 
Ressoa nítida e pungente! 

 Emily Dickinson, in "Poemas e Cartas" Tradução de Nuno Júdice

Nem sempre é a melhor das coisas, principalmente  o êxito nas guerras, só há "vencidos - agonizantes" 


Emília Pinto 

sexta-feira, 1 de julho de 2022

GUERRAS

 

imagem da net 

 A Inutilidade de Guerras e Revoluções 

As guerras e as revoluções - há sempre uma ou outra em curso - chegam, na leitura dos seus efeitos, a causar não horror mas tédio. Não é a crueldade de todos aqueles mortos e feridos, o sacrifício de todos os que morrem batendo-se, ou são mortos sem que se batam, que pesa duramente na alma: é a estupidez que sacrifica vidas e haveres a qualquer coisa inevitavelmente inútil. Todos os ideais e todas as ambições são um desvairo de comadres homens. Não há império que valha que por ele se parta uma boneca de criança. Não há ideal que mereça o sacrifício de um comboio de lata. Que império é útil ou que ideal profícuo? Tudo é humanidade, e a humanidade é sempre a mesma - variável mas inaperfeiçoável, oscilante mas improgressiva. Perante o curso inimplorável das coisas, a vida que tivemos sem saber como e perderemos sem saber quando, o jogo de mil xadrezes que é a vida em comum e luta, o tédio de contemplar sem utilidade o que se não realiza nunca - que pode fazer o sábio senão pedir o repouso, o não ter que pensar em viver, pois basta ter que viver, um pouco de lugar ao sol e ao ar e ao menos o sonho de que há paz do lado de lá dos montes

Fernando Pessoa in Livro do Desassossego

"Tudo é humanidade e a humanidade é sempre a mesma - variável mas inaperfeiçoável, oscilante mas improgressiva"

Destaco esta frase porque  ela resume aquilo que já todos nós pensamos.... O ser humano não muda! ; As guerras continuarão e quem sofre mais são as crianças por não conseguirem entendê-las.

Emília Pinto

quinta-feira, 23 de junho de 2022

BALÕEZINHOS

 

Imagem Pixabay 


Na feira do arrabaldezinho 
Um homem loquaz apregoa balõezinhos de cor: 
— "O melhor divertimento para as crianças!
Em redor dele há um ajuntamento de menininhos pobres, 
Fitando com olhos muito redondos os grandes balõezinhos muito redondos. 

No entanto a feira burburinha. 
Vão chegando as burguesinhas pobres, 
E as criadas das burguesinhas ricas, 
E mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza. 

Nas bancas de peixe, 
Nas barraquinhas de cereais, 
Junto às cestas de hortaliças 
O tostão é regateado com acrimônia. 

Os meninos pobres não veem as ervilhas tenras, 
Os tomatinhos vermelhos, 
Nem as frutas, 
Nem nada. 

Sente-se bem que para eles ali na feira os balõezinhos de cor 
são a única mercadoria útil e verdadeiramente indispensável. 

 O vendedor infatigável apregoa: 
— "O melhor divertimento para as crianças!" 
E em torno do homem loquaz os menininhos pobres 
fazem um círculo inamovível de desejo e espanto

Manuel Bandeira.

O mês de Junho está a chegar ao fim e com ele a minha homenagem às crianças; escolhi este poema que nos mostra que é preciso muito pouco para fazer uma criança feliz, basta um balão colorido para que os seus olhinhos brilhem de contentamento. Infelizmente há milhares por esse mundo fora que não conseguem ter a alegria de correr pela rua, segurando  um balãozinho.

Emília Pinto