segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

TERRA ADUBADA

 

Imagem Pixabay 


 Por detrás das árvores não se escondem faunos, não.
 Por detrás das árvores escondem-se os soldados 
.com granadas na mão 
 
As árvores são belas com os troncos dourados. 
São boas e largas para esconder soldados
Não é o vento que rumoreja nas folhas, 
não é o vento, não. 
São os corpos dos soldados rastejando no chão

O brilho súbito não é do limbo das folhas verdes reluzentes. 
É das lâminas das facas que os soldados apertam entre os dentes. 

As rubras flores vermelhas não são papoilas, não. 
É o sangue dos soldados que está vertido no chão

Não são vespas, nem besoiros, nem pássaros a assobiar. 
São os silvos das balas cortando a espessura do ar. 

Depois os lavradores rasgarão a terra 
com a lâmina aguda dos arados, 
e a terra dará vinho e pão e flores 
adubada com os corpos dos soldados 

 António Gedeão in Linhas de Força


Estamos a viver dias horríveis de guerra, em vários partes do globo e, se os poderosos não se preocuparem com a paz," depois da Curva da estrada ", encontraremos só " corpos de soldados rastejando no chão "

Emília Pinto

domingo, 1 de janeiro de 2023

PARA ALÉM......

 

 
Imagem Pixabay


......da curva da estrada 
Talvez haja um poço, e talvez um castelo, 
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto. 
Enquanto vou na estrada antes da curva 
Só olho para a estrada antes da curva, 
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva. 
De nada me serviria estar olhando para outro lado 
E para aquilo que não vejo. 
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos. 
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer. 
Se há alguém para além da curva da estrada, 
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada. 
Essa é que é a estrada para eles. 
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos. 
Por ora só sabemos que lá não estamos. 
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva 
Há a estrada sem curva nenhuma. 

 Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjunto s" Heterónimo de Fernando Pessoa


Encontrei este poema de Alberto Caeiro e achei-o pertinente para o começo do novo ano. Temos uma nova estrada a percorrer e, como sempre, ela vai ter curvas e algumas bastante fechadas; saibamos fazer o caminho, passo a passo, com muito cuidado, pois nunca saberemos o que há depois da curva

Amigos, desejo-vos uma caminhada serena, com saúde para poderem desviar as pedras que encontrarem nessa estrada; " há beleza bastante para estarmos aqui ", mas também muitas  dificuldades .


Emília Pinto

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

NATAL ....

 

Imagem Pixabay 

 ..... e não Dezembro 

Entremos, apressados, friorentos, 
numa gruta, no bojo de um navio, 
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido... 
Entremos, inseguros, mas entremos. 
Entremos, e depressa, em qualquer sítio, 
porque esta noite chama-se Dezembro, 
porque sofremos, porque temos frio

Entremos, dois a dois: somos duzentos, 
duzentos mil, doze milhões de nada. 
Procuremos o rastro de uma casa, 
a cave, a gruta, o sulco de uma nave... . 
Entremos, despojados, mas entremos
Das mãos dadas talvez o fogo nasça, 
talvez seja Natal e não Dezembro, 
talvez universal a consoada. 


David Mourão-Ferreira, in 'Cancioneiro de Natal

" Talvez seja Natal.... talvez consoada universal."....talvez alegria em todos os lares...talvez mesa farta...talvez um brinquedo para todas as crianças...TALVEZ....


Queridos Amigos, quero desejar a todos um Natal feliz, com alegria e saúde e. apesar de tantos infortúnios por esse mundo fora, " entremos neste espírito Natalício..." despojados, mas entremos"
Muito obrigada a todos pelo tanto de carinho que me têm dado e até Janeiro.

FELIZ NATAL 

Emília Pinto

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

VELHAS ÁRVORES

imagem da net 


Olha estas velhas árvores, — mais belas, 
Do que as árvores mais moças, mais amigas, 
Tanto mais belas quanto mais antigas, 
Vencedoras da idade e das procelas . . . 

O homem, a fera e o inseto à sombra delas 
Vivem livres de fomes e fadigas; 
E em seus galhos abrigam-se as cantigas 
E alegria das aves tagarelas . . . 

Não choremos jamais a mocidade! 
Envelheçamos rindo! envelheçamos 
Como as árvores fortes envelhecem, 

Na glória da alegria e da bondade 
Agasalhando os pássaros nos ramos, 
Dando sombra e consolo aos que padecem!

Olavo Bilac, in & Escritas, Org





Envelhecemos desde o nascimento  e há que aceitar esse facto, procurando fazê-lo com  " alegria, bondade, dando sombra e consolo aos que padecem

Emília Pinto 


terça-feira, 29 de novembro de 2022

DIALOGAR



 O Constante Diálogo

 

Há tantos diálogos.... 

 Diálogo com o ser amado 

o semelhante 

o diferente  

o indiferente 

o oposto 

o adversário 

o surdo-mudo 

 o possesso 

 o irracional 

 o vegetal 

 o mineral 

 o inominado 

 Diálogo consigo mesmo 

 com a noite 

 os astros 

 os mortos 

 as ideias 

 o sonho 

 o passado 

 o mais que futuro 

 Escolhe teu diálogo 

 tua melhor palavra 

 ou 

teu melhor silêncio. 

Mesmo no silêncio e com o silêncio dialogamos.


Carlos Drummond de Andrade, in Discurso da Primavera


Mais palavras para quê? Aqui já está tudo dito pelo fantástico Carlos Drummond de Andrade

Emília Pinto 



quarta-feira, 16 de novembro de 2022

MENTIRA

 

Imagem da net 


 Uma mentira, fina como um cabelo, perturba para sempre a ordem do mundo. Aquilo que sabemos tem muita importância. Tomamos decisões, vamos por aqui ou por ali, consoante aquilo que sabemos. E tudo o que virá a seguir, o futuro até ao fim dos tempos, será diferente se formos por um lado em vez de irmos por outro. Nascem pessoas devido a insignificâncias, morrem pessoas pelo mesmo motivo. Uma pessoa é uma máquina de coisas a acontecer, possibilidades multiplicadas por possibilidades em todos os instantes do seu tempo. Uma mentira, mesmo que transparente, perturba o entendimento que os outros têm da realidade, leva-os a acreditar que é aquilo que não é. Essa poluição vai turvar- lhes a lógica do mundo. As conclusões a que forem capazes de chegar serão calculadas a partir de um dado falso e, desse ponto em diante, todas as contas serão multiplicações de erros. Uma mentira baralha tudo aquilo em que toca, desequilibra o mundo. É por isso que uma mentira precisa sempre de mentiras novas para se suster. O mundo não lhe dá cobertura. Para alcançar coerência, cada mentira requer a criação apressada de um mundo de mentira que a suporte. É assim que a mentira vai avançando pela verdade adentro, como uma toupeira cega a abrir túneis e câmaras no interior da terra. Quando se abre a boca para libertar uma mentira, a primeira, filha de nada que a justifique, nunca se consegue ter noção completa de onde chegará. Nesse momento, na inocência aparente, com voz de gatinho acabado de nascer, está a soltar-se um predador voraz, não há fronteiras marcadas para a sua fome. Uma mentira pode construir edifícios imensos, levantar cidades; uma mentira pode colocar em movimento milhares de pessoas, pode dar propósito a multidões incalculáveis, cada pontinho a ser uma cabeça com história; uma só mentira pode manter em cativeiro gerações inteiras de pessoas que ainda não nasceram, netos que os avós não são capazes de imaginar, ignorantes da mentira original que os domina.


José Luis Peixoto in "  Em Teu Ventre "

" Uma mentira, fina como um cabelo" pode causar estragos irreparáveis

Emília Pinto 


sexta-feira, 4 de novembro de 2022

CAI A CHUVA.....

 


Imagem Pixabay 



.. 

Cai a chuva no portal, está caindo 
Entre nós e o mundo, essa cortina 
Não a corras, não a rasgues, está caindo 
Fina chuva no portal da nossa vida. 
Gotas caem separando-nos do mundo 
Para vivermos em paz a nossa vida

Cai a chuva no portal, está caindo 
Entre nós e o mundo, essa toalha 
Ela nos cobre, não a rasgues, está caindo 
Chuva fina no portal da nossa casa. 
Por um dia todos longe e nós dormindo 
Lado a lado, como páginas dum livro. 


 Lídia Jorge, ( inédito ) in Citador

Não podemos afastar-nos do mundo para" vivermos em paz a nossa vida," pois fazemos parte dele e, infelizmente, a chuva que cai não tem sido fina, mas, sim, torrencial

Nada conheço da obra de Lídia Jorge, mas, depois de ouvi- la numa entrevista, resolvi pesquisar e descobri este poema que me agradou muito. Espero que gostem!

Emília Pinto