sexta-feira, 22 de abril de 2022

CÂNTICO......

   ...... da Esperança 


Não peça eu nunca
para me ver livre de perigos
Mas coragem para enfrentá-los

Não queira eu
que se apaguem minhas dores
mas que saiba dominá-las
no meu coração

Não procure eu amigos
no campo de batalha da vida
mas ter forças dentro de mim

Não deseje eu ansiosamente
ser salvo
mas ter esperanças
para conquistar pacientemente minha liberdade

Não seja eu tão cobarde, Senhor
que deseje a tua misericórdia
no meu triunfo
mas apertar a tua mão
no meu fracasso


Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"

Abril é para nós. portugueses, um mês muito importante.  Foi, o dia 25 de 1974. como que um " Cântico de Esperança ", o fim da ditadura e  o começo de um novo tempo , tempo de esperança numa liberdade " pacientemente conquistada e que, esperemos, seja  duradoura

Emília Pinto

terça-feira, 12 de abril de 2022

LIBERDADE

 Imagem pixabay



Pensamos de Mais e Sentimos de Menos


Queremos todos ajudar-nos uns aos outros. Os seres humanos são assim. 
Queremos viver a felicidade dos outros e não a sua infelicidade. Não queremos odiar nem desprezar ninguém. Neste mundo há lugar para toda a gente. E a boa terra é rica e pode prover às necessidades de todos. O caminho da vida pode ser livre e belo, mas desviámo-nos do caminho. A cupidez envenenou a alma humana, ergueu no mundo barreiras de ódio, fez-nos marchar a passo de ganso para a desgraça e a carnificina. Descobrimos a velocidade, mas prendemo-nos demasiado a ela. A máquina que produz a abundância empobreceu-nos. A nossa ciência tornou-nos cínicos; a nossa inteligência, cruéis e impiedosos. Pensamos de mais e sentimos de menos. Precisamos mais de humanidade que de máquinas. Se temos necessidade de inteligência, temos ainda mais necessidade de bondade e doçura. Sem estas qualidades, a vida será violenta e tudo estará perdido. O avião e a rádio aproximaram-nos. A própria natureza destes inventos é um apelo à fraternidade universal, à união de todos. Neste momento, a minha voz alcança milhões de pessoas através do mundo, milhões de homens sem esperança, de mulheres, de crianças, vítimas dum sistema que leva os homens a torturar e a prender pessoas inocentes. Àqueles que podem ouvir-me, digo: Não desesperem. A desgraça que nos oprime não provém senão da cupidez, do azedume dos homens que têm receio de ver a humanidade progredir. O ódio dos homens há-de passar, e os ditadores morrem, e o poder que tiraram ao povo, o povo retomá-lo-à. Enquanto os homens morrerem, a liberdade não perecerá


 Charles Chaplin, in 'Discurso final de «O Grande Ditador»


Este magnífico texto descreve, na perfeição, os sentimentos do ser humano, não acham, Amigos? Grande CHARLES CHAPLIN!

Emília Pinto

segunda-feira, 4 de abril de 2022

GENTE

 




 Imagem da net

 

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco 

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis 

Faz renascer meu gosto 
De luta e de combate 
Contra o abutre e a cobra 
O porco e o milhafre 

Pois a gente que tem 
O rosto desenhado 
Por paciência e fome 
É a gente em quem 
Um país ocupado 
Escreve o seu nome 

E em frente desta gente 
Ignorada e pisada 
Como a pedra do chão 
E mais do que a pedra 
Humilhada e calcada 

Meu canto se renova 
E recomeço a busca 
De um país liberto 
De uma vida limpa 
E de um tempo justo 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia

Infelizmente, o povo não é protegido pelos seus dirigentes, mas antes , esmagado, pisado  como vemos um pouco por todo o lado. E todos esperamos " Um tempo justo " que tarda a chegar

Emília Pinto

quarta-feira, 23 de março de 2022

PAZ

imagem pixabay


A PAZ EXISTE? 


"Enchem a boca de paz, e não há tal paz no mundo. E senão, quem há tão cego, que não veja o mesmo hoje em toda a parte? 
Dizem que há paz nos reinos, e os vassalos não obedecem aos reis: 
dizem que há paz nas cidades, e os súbditos não obedecem aos magistrados:
dizem que há paz nas famílias, e os filhos não obedecem aos pais: 
dizem que há paz nos particulares, e cada um tem dentro em si mesmo a maior e a pior guerra. 
Havia de mandar a razão, e o racional não lhe obedece; porque nele, e sobre ela domina o apetite. (...) 
A paz do mundo é guerra que se esconde debaixo da paz.
Chama-se paz e é lisonja: chama-se paz, e é dissimulação: chama-se paz, e é dependência: chama-se paz, e é mentira, quando não seja traição.” 

 Padre Antônio Vieira, in Sermões

Será que o Padre António Vieira não tem razão? Como queremos Paz no mundo se, tantas vezes, nas famílias, há guerras tremendas?

Mesmo sabendo que é uma utopia, quero muito que a Paz reine no mundo e que esta, bem perto de nós, acabe depressa

Emília Pinto

domingo, 13 de março de 2022

GUERRA

 

 Imagem pixabay



Desfilam diante de mim as civilizações guerreiras... 
As civilizações guerreiras de todos os tempos e lugares... 
Num panorama confuso e lúcido,
Em quadras misturadas e não misturadas, separadas e compactas, mas só quando  
Em desfile sucessivo e apesar disso ao mesmo tempo, 
Passm......

Passam e eu, eu que estou estendido na erva
E vi os carros passarem, passarem — cessarem depois para nós mesmos 
Vejo-os e o meu espanto nem é muito calmo nem interessado 
Nem os vê nem os deixa de ver, 
E eles passam por mim como um pó ou leve vento sobe pelos ares. 

Ah a pompa antiga, e a pompa moderna, os uniformes dos engenhos de guerra, 
A fúria terna e [...] dos combates 
Os mortos sempre a mesma misteriosa vida — o corpo no chão (e o que é o mundo, afinal, e aonde?) 

A ferida [...] E o céu, o eterno céu insensível sobre isso tudo! 


 Fernando Pessoa


E a guerra continua ....insana, esperando nós que a paz volte à Ucrânia o mais depressa possível

Emília Pinto

sexta-feira, 4 de março de 2022

ERA? NÃO FOI...NEM É...

 

imagem pixabay







Ocaso do século 


Era para ter sido melhor que os outros o nosso século XX. 
Agora já não tem mais jeito, 
os anos estão contados, 
os passos vacilantes, 
a respiração curta. 

Coisas demais aconteceram, 
que não eram para acontecer, 
e o que era para ter sido não foi. 

Era para se chegar à primavera e à felicidade, 
entre outras coisas. 

Era para o medo deixar os vales e as montanhas. 
Era para a verdade atingir o objetivo 
mais depressa que a mentira 

Era para já não mais ocorrerem algumas desgraças: 
a guerra por exemplo, e a fome e assim por diante. 

Era para ter sido levada sério a fraqueza dos indefesos, 
a confiança e similares. 

Quem quis se alegrar com o mundo 
depara com uma tarefa de execução impossível. 

A burrice não é cômica. 
A sabedoria não é alegre. 
A esperança já não é aquela bela jovem et cetera, 
infelizmente. 

Era para Deus finalmente crer no homem bom e forte 
mas bom e forte são ainda duas pessoas. 
Como viver — me perguntou alguém numa carta, 
a quem eu pretendia fazer a mesma pergunta. 

De novo e como sempre, como se vê acima, 
não há perguntas mais urgentes 
do que as perguntas ingênuas.


Wislawa Szimborsk


Infelizmente, passam os séculos e nada muda

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

O FIM E O COMEÇO


 

Depois de cada guerra 
alguém tem que fazer a faxina. 
Colocar uma certa ordem 
que afinal não se faz sozinha. 

Alguém tem que jogar 
o entulho para o lado da estrada 
para que possam passar os carros 
carregando os corpos. 

 Alguém tem que se atolar 
no lodo e nas cinzas
em molas de sofás     
em cacos de vidro 
e em trapos ensanguentados. 

Alguém tem que arrastar a viga 
para apoiar a parede, 
pôr a porta nos caixilhos, 
envidraçar a janela. 
A cena não rende foto e leva anos.
        
E todas as câmeras 
já debandaram para outra guerra. 
As pontes têm que ser refeitas, 
e também as estações. 

De tanto arregaçá-las, 
as mangas ficarão em farrapos. 
Alguém de vassoura na mão 
ainda recorda como foi. 

Alguém escuta 
meneando a cabeça que se safou. 
Mas ao seu redor 
já começam a rondar 
os que acham tudo muito chato. 

Às vezes alguém desenterra 
de sob um arbusto velhos 
argumentos enferrujados 
e os arrasta para o lixão. 

Os que sabiam o que aqui se passou 
devem dar lugar àqueles que pouco sabem. 
Ou menos que pouco. 
E por fim nada mais que nada. 

Na relva que cobriu as causas e os efeitos 
alguém deve se deitar
com um capim entre os dentes
e namorar as nuvens 


 Wislawa Szymborsk


 Quem foi ? Wisława Szymborska, Maria Wisława Anna Szymborska (Kórnik, 2 de julho de 1923 — Cracóvia, 1 de fevereiro de 2012) foi uma escritora polaca galardoada com o Prémio Nobel na área de literatura (1996). Poetisa, crítica literária e tradutora, viveu em Cracóvia, onde se formou em Filologia Polaca e Sociologia pela Universidade Jaguellonica. A sua extensa obra, traduzida em 36 línguas, foi caracterizada pela Academia de Estocolmo como «uma poesia que, com precisão irónica, permite que o contexto histórico e biológico se manifeste em fragmentos da realidade humana», tendo sido a poetisa definida, como «o Mozart da poesia» "


Depois de uma guerra alguém tem de fazer uma faxina... " Mas será que há tempo? Elas sucedem -se , sem intervalos e agora temos mais uma; impossível " colocar uma certa ordem " tamanho é o " entulho " acumulado

 A nossa solidariedade com o povo da Ucrânia e com todos os outros povos que vivem em guerra