terça-feira, 30 de dezembro de 2025

ANO NOVO

 



Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, 
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) 
para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, 
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; 
novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo, 
espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha, 
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?) 
não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. 
Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumadas 
nem parvamente acreditar 
que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem
 e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, 
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, 
começando pelo direito augusto de viver. 
Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. 
É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.

 Carlos Drummond de Andrade


Queridos Amigos, quero agradecer o carinho  recebido há já tantos e tantos anos e espero continuar a merecer a vossa amizade neste 2026 que está à porta.

Saúde para todos vós e  muitos momentos felizes. 
Tentemos seguir os conselhos de Carlos Drummond de Andrade para que este novo ano seja muito mais do que um número diferente

Emília Pinto

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

NATAL......






...... e não Dezembro

Entremos, apressados, friorentos, numa gruta, no bojo de um navio, num presépio, num prédio, num presídio, no prédio que amanhã for demolido… 

Entremos, inseguros, mas entremos. 

Entremos, e depressa, em qualquer sítio, porque esta noite chama-se Dezembro, porque sofremos, porque temos frio. . 

Entremos, dois a dois: somos duzentos, duzentos mil, doze milhões de nada

Procuremos o rastro de uma casa, a cave, a gruta, o sulco de uma nave… 

Entremos, despojados, mas entremos. 

Das mãos dadas talvez o fogo nasça, talvez seja Natal e não Dezembro, talvez universal a consoada. – 


David Mourão-Ferreira, em ‘Cancioneiro de Natal


Queridos Amigos, com este belo poema, deixo votos de que tenham um Natal sereno, alegre, com a família reunida e que o novo ano nos traga a todos saúde e a esperança de que algum dia

" Das mãos dadas talvez o fogo nasça, talvez seja Natal e não Dezembro, talvez universal a consoada 


Emília Pinto

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

SOCIEDADE EGOÍSTA

 

Estamos a construir uma sociedade de egoístas. Se a ti te dizem que o que importa é o que compras, e segundo o que compras têm mais ou menos consideração por ti, então convertes-te num ser que não pensa senão em satisfazer os seus gostos, os seus desejos e nada mais. 
Não existe em nenhuma faculdade uma disciplina do egoísmo, mas não é preciso, é a própria experiência social que nos vai fazendo assim. Ao longo da História as igrejas e as catedrais eram os lugares onde se procurava um valor espiritual determinado. Agora os valores adquirem-se nos centros comerciais. São as catedrais do nosso tempo. 

 José Saramago, in 'El Mundo (2000) 

Hoje, pelos meios de comunicação, vi um alto dignatário das Nações Unidas. dando a conhecer ao mundo as dificuldades com que esta organização se debate para fazer face às necessidades das populações que estão a sofrer com a fome, com as catástrofes naturais, com as guerras e outros males, As contribuições das grandes potências, principalmente dos Estados Unidos, estão a diminuir drasticamente; as guerras continuam por toda a parte e a indústria do armamento enriquece com as nações cada vez mais preocupadas com a segurança.
Os recursos diminuem e com eles, desaparecem a EMPATIA global e a preocupação com a miséria humana. 
 
E assim, a ABASTANÇA tem contribuído  para uma " sociedade egoísta, uma sociedade cujos valores se adquirem nos centros comerciais; são, estes, as catedrais do nosso tempo " 

 Emília Pinto