terça-feira, 8 de agosto de 2017

TERRA






António, é preciso partir!
O moleiro não fia, a terra é estéril, a arca vazia, o gado minga e se fina!
António é preciso partir!
A enxada sem uso, o arado enferruja, o menino quer o pão; a tua casa é fria!
É preciso emigrar!
O vento anda como doido – levará o azeite; a chuva desaba noite e dia – inundará tudo; e o lar vazio, o gado definhando sem pasto, a morte e o frio por todo o lado, só a morte, a fome e o frio por todo o lado,
António! É preciso embarcar! Badalão! Badalão! – o sino já entoa a despedida.
Os juros crescem; o dinheiro e o rico não têm coração.
E as décimas, António? Ninguém perdoa – que mais para vender?
Foi-se o cordão, foram-se os brincos, foi-se tudo!
A fome espia o teu lar. Para quê lutar com a secura da terra, com a indiferença do céu, com tudo, com a morte, com a fome, coma a terra, com tudo!
Árida, árida a vida! António, é preciso partir!
António partiu. E em casa, ficou tudo medonho, desamparado, vazio


 Fernando Namora, in 'Terra'


Confesso que não conhecia este poema de Fernando Namora. Quando o li, resolvi publicá-lo, porque estamos em Agosto, mês em que os " Antónios " do nosso Portugal voltam à sua terra para reverem tudo o que um dia foram obrigados a deixar. " Árida era a terra e árida era a vida deles, por isso "emigraram ...partiram."


Emília Pinto

29 comentários:

  1. Lindo,profundo poema..Adorei e tua explicação o completou bem! bjs, chica

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    1. Obrigada, Chica! Foi bom ter dado a explicação, principalmente para vós, amigos brasileiros. O Agosto em Portugal é o mês de férias e é agora que os nossos emigrantes voltam para as passarem com os familiares que cá ficaram. Sei que o Agosto aí é um mês de inverno e que desagrada ao povo, por várias razões que nunca entendi muito bem. Beijinhos, Chica e até breve
      Emilia

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  2. Uma escolha brilhante, também não conhecia este poema.
    Beijinhos
    Maria de
    Divagar Sobre Tudo um Pouco

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    1. Que bom, Maria! Hoje as duas aprendemos alguma coisa, ficamos a conhecer um belo poema. Desculpa a minha ausência, mas, nem sempre estou em casa e falta-me a net; prometo visitar-te brevemente. Obrigada pela visita e fica bem, amiga. Beijinhos
      Emilia

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    2. Querida Emília sua postagem foi maravilhosa, é um poema tocante que retrata o sofrimento de ter que emigrar da terra que se ama.
      Emília, não sabia que já estavas de volta, sei que aí estão no verão e pensei que estivesses em alguma praia aproveitando o sol. Aqui é o que chamamos de inverno, não temos neve, mas é um frio orvalhado, úmido, cariocas como eu, e principalmente que moram perto do mar, de onde vem um vento gelado à noite, detestam o inverno.
      Mas, é um inverno sui generis pois hoje tivemos sol o dia inteiro e a noite está fria!
      Aproveite bem seu verão, pois sol é saúde e alegria, esquenta o corpo e a alma.
      Muitas alegrias, bom verão.
      beijinhos, Léah

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    3. É verdade, Leah, não é bom ter de largar a nossa terra por necessidade, mas infelizmente acontece isso muitas vezes Eu também o fiz, mas, no meu caso a " aridez da vida" não era como no tempo aqui retratado; depois o pais escolhido foi o Brasil, onde se fala a mesma lingua e os costumes são parecidos, além disso fomos num pequeno grupo já amigos e que se mantêm até hoje unidos; eramos uma familia grande. Eu ainda estou na praia, mas venho de vez em quando a casa e aproveito para usar a net à vontade. Muito obrigada, querida amiga, pela visita. Tudo de bom e até breve. Um beijinho
      Emilia

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  3. Olá Emília!
    Lindo, lindo, lindo!
    Excelente escolha e oportuna partilha.
    Obrigada!

    Boas férias, amiga. Como diz a Léah, com saúde e alegria.
    Também eu estou de férias... do meu rol.
    Beijo.

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    1. Também achei isso, Teresa, muito lindo e oportuno dada a época em que estamos, quando os nossos emigrantes vêm cá matar as saudades. Nesta altura do ano os blogs ficam de férias e as visitas aos amigos escasseiam, mas, coitados , também eles precisam de um pouco de descanso, não é verdade? Para ti, amiga, e para o teu " rol" ( gosto deste nome...) um bom descanso e que a alegria não vos falte. Obrigada! Beijinhos
      Emilia

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  4. Ter que partir... porque não há alternativas... Doí muito...
    Também não conhecia este poema... Obrigada pela partilha e pela visita....
    Beijos e abraços
    Marta

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    1. As partidas doem sempre um pouco, mas em casos como este retratado no poema, a dor é muito grande. Os blogs têm destas coisas, Marta ensinam muito, tanto a quem publica quanto a quem lê. Queria um tema relacionado com este nosso mês de Verão e, ao pesquisar, encontrei esta maravilha. Obrigada, amiga, pela visita e desejo-te tudo de bom. Um beijinho
      Emilia

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  5. Querida Emília, você trouxe a nata dos escritores portugueses, o médico - escritor que depois, pela importância de sua obra tornou-se conhecido como o escritor - médico, segundo Mário Sacramento. Escritor premiado e editado em inúmeras línguas.

    "A fome espia o teu lar. Para quê lutar com a secura da terra, com a indiferença do céu, com tudo, com a morte, com a fome, coma a terra, com tudo!"

    Poema forte, triste, mas qual solução para tanto sofrimento?
    Beijinho, querida amiga, fantástico Fernando Namora.

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  6. Este poema, Tais, retrata uma época de uma forte emigração dos portugueses, principalmente para França, Alemanha e Canadá; viviamos em ditadura e as oportunidades para as pessoas eram poucas, havendo até fome em algumas aldeias onde se vivia só da agricultura; muitos partiam só para conseguirem dinheiro para uma casa e logo que o conseguiam voltavam, mas outros por lá ficaram; este mês é o escolhido para virem matar saudades da terra que tiveram que deixar e, claro, já são filhos e netos dos primeiros que partiram, alguns já nem tentam falar o português. Hoje a emigração é bem diferente, é, na sua maioria, feita por jovens licenciados que partem para outros paises europeus tentando melhores salários. Amiga, fiquei muito contente que tenhas gostado de recordar o nosso Fernando Namora e que tenhas apreciado este poema, triste, mas que retrata fielmente uma época de grande miséria no nosso país. Um beijinho para os dois e até breve
    Emilia

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  7. Pior ainda...Passos (e quem o apoia )empurrou-os para o estrangeiro friamente , sem noção da dor que os emigrantes sofrem e do direito que cada pessoa tem de viver dignamente no seu próprio país.

    Beijinhos, MIla, bom final de semana

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    1. É verdade, São, foi um momento muito infeliz de Passos Coelho, aliás acontece-lhe isso com frequência, abrindo a boca para dizer asneiras. Ter que sair do lugar onde se nasceu por necessidade é muito triste e na época retratada neste poema ainda era pior, pois havia muita miséria e pouca formação o que levava as pessoas a terem trabalhos muito duros e mal remunerados, São, muito obrigada pela visita e desejo-te dias felizes, principalmente com saúde. Beijinhos
      Mila

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  8. As partidas continuam e continuarão!
    Hoje, são quem estudos têm!

    Desculpa a minha falta de presença...ando adoentada.

    Beijinhos.

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    1. Sempre haverá partidas, sim, Lisa, umas por opção, outras por necessidade, mas, penso que não serão tão tristes como as que havia nesta época; as condições são outras. Lisa, pensei que estivesses de férias e por isso não estranhei a tua " falta de presença ", mas afinal é por andares adoentada o que lamento muito; espero que não seja nada grave e que rapidamente recuperes. Um beijinho e as melhoras, querida amiga .
      Emilia

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  9. A emigração sempre foi um recurso, uma emergência, pelo menos na esmagadora maioria dos casos. E muitos deles (quase todos) tiveram sucesso e passaram a viver melhor. Ainda assim é muito triste um país ver os seus habitantes partir por necessidade extrema.
    Fernando Namora foi um grande escritor. E este texto é soberbo.
    Obrigado pela partilha.
    Bom fim de semana, amiga Emília.
    Beijo.

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    1. Concordo contigo, Jaime, apesar do grande sofrimento e da vida dura que lá tiveram, foram bem sucedidos e puderam dar uma vida melhor aos fihos. Se tivessem ficado cá não estariam tão bem. Um beijinho, Jaime e obrigada pela visita. Desejo tudo de bom para ti e para os teus.
      Emilia

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  10. Querida Emília

    Muito bom teres trazido Fernando Namora, num retrato datado da vida portuguesa. Muitos deram o "salto", levando vidas tristes, trabalhando e poupando para um dia voltarem para a sua saudosa terra.
    Bem o dizes, a realidade da emigração hoje é diferente mas traz igualmente saudades e sentimento de desenraizamento.

    Desejo-te um bom fim de semana e dias felizes.

    Beijinhos

    Olinda

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    1. É verdade, Olinda, muitos deram " o salto " e fizeste-me lembrar a quantidade deles que o meu pai levou à fronteira para que dali fossem " a monte " para a França. O meu pai era taxista na aldeia onde nasci e também nos arredores e pt levou muita gente; alguns ficaram-lhe agradecidos e amigos para sempre, pois corria um grande risco com esse serviço; claro, ele precisava de ganhar dinheiro e portanto arriscava. A vida era muito " árida para todos naquele tempo; apesar de todos os problemas de hoje, vive-se com melhores condições em todos os aspectos. Querida Olinda, muito obrigada pela visita e desejo que estejam todos bem aí por casa. Um beijinho
      Emilia

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  11. Gostei muito do poema...
    Ao tempo que não relia FNamora...
    Dias aprazíveis.
    Abraço
    ~~~

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    1. Então somos duas, querida Majo, pois também eu há muito não lembrava Fernando Namora. Gostei deste poema "terra " e ele tem outros a ele referentes e muito interessantes. Obrigada, amiga, e espero que estejas a ter umas boas férias. Beijinhos
      Emilia

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    2. Corrigindo... a ela referentes.
      bjo
      Emilia

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  12. Bom dia amiga!
    Minha visita hoje é para divulgar o blog da Biblioteca da escola que trabalho EREM DR Mota Silveira. Biblioteca Madre Ódila Maroja, este cantinho especial nasceu recentemente. É um blog voltado para pesquisas nas mais diferentes áreas de conhecimento, já tem postagens de , Matemática, Química, Biologia, Língua portuguesa, Filosofia, Sociologia, Direitos Humanos e outras áreas de conhecimento. Também faço parte na organização e pesquisas das postagens. O link é este, http://bibliotecamadre.blogspot.com.br/ caso deseje conhecer e seguir, será um grande prazer, pois como seguidora e comentarista dos meus blogs, você só engrandece as postagens. Obrigada, tenha um Domingo de muita paz e um início de semana abençoado.
    Desculpe não comentar a sua maravilhosa postagem, logo retornarei. Abraços Lourdes Duarte.

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    1. Obrigada, Lourdes. Com certeza que visitarei esse novo cantinho. Um beijinho e ate breve
      Emilia

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  13. E num ano, em que particularmente, a seca e os incêndios, se fazem sentir com intensidade... este texto... ainda mais cresce em actualidade...
    Já há algum tempo que não lia nada de Fernando Namora... pelo que foi uma boa surpresa, encontrá-lo por aqui... neste tocante texto!
    Adorei o post, Emília!
    Beijinhos! Feliz domingo!
    Ana

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  14. É impressionante, Ana, como o ser humano é inconsciente; fogos terriveis todos os anos e nada se faz para que essas mãos criminosas parem com esta desgraça. As matas estão sujas e muitas propriedades abandonadas, mas, para arderem é preciso que lhes acendam um fósforo; o fogo não começa do nada. Todos sabem que estamos num periodo de grande seca, mas, não se vê ninguém a poupar água; os jardins continuam a ser regados, carros e ruas a serem lavados de mangueira; se as pessoas não têm consciência, há que proibir de alguma maneira.
    Como já disse nos comentário acima, para mim também foi uma " descoberta ", pois há muito não lia nada deste escritor e pt foi uma boa escolha para todos. Ana, obrigada pela visita e espero que já estejas na Ericeira, pois isso será sinal de que a tua mãe já está boa. Beijinhos e até breve.
    Emilia

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  15. Temos uma história de emigração de 500 anos, ajudámos no desenvolvimento, construíram-se cidades e por ai fora. Continuamos a sair e pelo caminho cruzamos com imigrantes que se estabelecem em Portugal. Sinais do tempo, deambula-se de um lado para o outro. Conheço um lugar onde há diamantes mas eu não quero ir para lá.
    Boas féria, eu irei só em Novembro.
    Beijos com votos de muita saúde.

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  16. Emília, meu amor, desculpe-me por tanto tempo sem chegar ao seu espaço que tanto preso por ser um dos primeiros contatos com meus amigos portugueses do meu blog. Como sempre és gentil e atenciosa com teus contatos. Fico feliz em não esqueceres de mim, teu humilde súdito nessa blogesfera ou feras dos blogs. Minha gratidão e parabéns pela excelente postagem. Grande abraço. Laerte.

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