quinta-feira, 25 de novembro de 2021

ESTADO FRENÉTICO DA .....

 .....Tagarelice



Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos, trios, ensembles, coros. 
Desde os píncaros de Castro Laboreiro ao Ilhéu de Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações. Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e décibeis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão. (...) Telefones móveis! Soturna apoquentação! Um país tagarela tem, de um momento para o outro, dez milhões de íncolas a querer saber onde é que os outros param, e a transmitir pensamentos à distância. Afortunados ventos que batem todas as altitudes e pontos cardeais e levam as mais das palavras, às vezes frases inteiras, parágrafos, grosas deleas, para as afogar no mar, embeber nos lameiros de Espanha, gelar nos confins da Sibéria, perder nas imensidades do éter. É um favor de Deus único e verdadeiro. O país pereceria num sufoco, aflito de rouquidões, atafulhado de vocábulos, envenenado de sandices, se a Providência caridosa lhos não disseminasse por desatinadas paragens. 

 Mário de Carvalho, in "Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina"


  O Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa condecorou Mário de Carvalho com a Grã - Cruz da Ordem do Infante," um reconhecimento público pelo muito feito por Portugal em 40 anos de dedicação à literatura "


E com as redes sociais a Tagarelice " corre mundo "

Emília Pinto

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

CARTA......

 Imagem da net



.... à Minha Filha 


Lembras-te de dizer que a vida era uma fila? 
Eras pequena e o cabelo mais claro, mas os olhos iguais. 
Na metáfora dada pela infância, perguntavas do espanto da morte e do nascer,
e de quem se seguia e porque se seguia, 
ou da total ausência de razão nessa 
cadeia em sonho de novelo. 

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se de junho, 
o teu cabelo claro mais escuro, 
queria contar-te que a vida é também isso: 
uma fila no espaço, uma fila no tempo 
e que o teu tempo ao meu se seguirá. 

Num estilo que gostava, esse de um homem 
que um dia lembrou Goya numa carta a seus filhos
queria dizer-te que a vida é também isto: 
uma espingarda às vezes carregada (como dizia uma mulher sozinha, mas grande de jardim). 
Mostrar-te leite-creme, deixar-te testamentos, 
falar-te de tigelas - é sempre olhar-te amor. 
Mas é também desordenar-te à vida, 
entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua de mentiras,
em carinho de verso. 

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida, 
de quem a habita para além do ar. 
E que o respeito inteiro e infinito 
não precisa de vir depois do amor. Nem antes
Que as filas só são úteis como formas de olhar, 
maneiras de ordenar o nosso espanto, 
mas que é possível pontos paralelos, espelhos e não janelas. 

que tudo está bem e é bom: 
fila ou novelo, duas cabeças tais num corpo só, 
um dragão sem fogo, ou unicórnio ameaçando chamas muito vivas. 
Como o cabelo claro que tinhas nessa altura 
se transformou castanho, ainda claro, 
e a metáfora feita pela infância 
se revelou tão boa no poema. 
Se revela tão útil para falar da vida, 
essa que, sem tigelas, intactas ou partidas, 
continua a ser boa, mesmo que em dissonância de novelo. 

 
Não sei que te dirão num futuro mais perto, 
se quem assim habita os espaços das vidas 
tem olhos de gigante ou chifres monstruosos. 
Porque te amo, queria-te um antídoto igual a elixir, 
que te fizesse grande de repente, 
voando, como fada, sobre a fila. 
Mas por te amar, não posso fazer isso, 
e nesta noite quente a rasgar junho, 
quero dizer-te da fila e do novelo 
e das formas de amar todas diversas, 
mas feitas de pequenos sons de espanto, 
se o justo e o humano aí se abraçam. 

 A vida, minha filha, pode ser de metáfora outra: 
uma língua de fogo; uma camisa branca da cor do pesadelo.
Mas também esse bolbo que me deste, 
e que agora floriu, passado um ano. 
Porque houve terra, alguma água leve, 
e uma varanda a libertar-lhe os passos.

 Ana Luísa Amaral, in 'Imagias (Um pouco só de Goya:)


Que lindo, Amigos!!!

Voltei a esta poetisa porque ela foi homenageada com o prémio Raínha Sofia deste ano, um prémio atribuido a escritores vivos que, com a sua obra tenham  dado um importante contributo para o património cultural do espaço Ibero- americano Já foram agraciados com este prémio, Sophia de Mello Breyner , Nuno Júdice e o brasileiro  João Cabral de Melo Neto,

Emília Pinto

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

A VERDADE

 Imagem Pixabay



A Busca da Verdade 


A verdade é um ideal tipicamente jovem, o amor, por seu turno, um ideal das pessoas maduras e daqueles que se esforçam por estar preparados para enfrentar a diminuição das energias e a morte.
As pessoas que pensam só deixam de ambicionar a verdade quando se dão conta que o ser humano está extraordinariamente mal dotado pela natureza para o reconhecimento da verdade objectiva, pelo que a busca da verdade não poderá ser a actividade humana por excelência. Mas também aqueles que jamais chegam a tais conclusões fazem, no decurso das suas experiências inconscientes, um percurso semelhante. Ter consigo a verdade, a razão e o conhecimento, conseguir distinguir com precisão entre o Bem e o Mal, e, em consequência disso, poder julgar, punir e sentenciar, poder fazer e declarar a guerra - tudo isto é próprio dos jovens e é à juventude que assenta bem. Se, porém, quando envelhecemos, continuamos a ater-nos a estes ideais, fenece a já se si pouco vigorosa capacidade de «despertar» que possuímos, a capacidade de reconhecer instintivamente a verdade sobre-humana.


 Hermann Hesse, in 'Elogio da Velhice


Com a idade, temos a obrigação de saber que " não somos os donos da verdade " 

Achei muito interessante este texto. Espero que gostem 

Emília Pinto

sábado, 23 de outubro de 2021

DAR ....




Um Pouco Mais de Nós 



Podes dar uma centelha de lua, 
um colar de pétalas breves 
ou um farrapo de nuvem; 
podes dar mais uma asa 
a quem tem sede de voar 
ou apenas o tesouro sem preço 
do teu tempo em qualquer lugar; 
podes dar o que és e o que sentes
sem que te perguntem 
nome, sexo ou endereço; 
podes dar em suma, com emoção, 
tudo aquilo que, 
em silêncio, te segreda o coração
podes dar a rima sem rima 
de uma música só tua 
a quem sofre a miséria 
dos dias na noite
sem tecto de uma rua;
podes juntar o diamante da dádiva 
ao húmus de uma crença forte e antiga, 
sob a forma de poema ou de cantiga; 

podes ser o livro, o sonho, 
o ponteiro do relógio da vida sem atraso, 
e sendo tudo isso serás ainda mais, 
anónimo, pleno e livre, 
nau sempre aparelhada para deixar o cais, 
porque o que conta, vendo bem, 
é dar sempre um pouco mais
sem factura, sem fama, sem horário, 
que a máxima recompensa de quem dá 
é o júbilo de um gesto voluntário
E, afinal, tudo isso quanto vale ? 
Vale o nada que é tudo 
sempre que damos de nós o que, 
sendo acto amor, ganha voz 
e se torna eterno por ser único e total.


José Jorge Letria


" O que conta é dar sempre um pouco de nós aos outros", principalmente àqueles que mais precisam 

Emília Pinto

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

POVO

 





Não quero sentir a solidão  
e a distância de meu povo. 
Não quero sentir medo 
nem ver o medo que o povo sente.
Quero sentir o povo unido
Quero vê-lo de mãos dadas, 
construindo um mundo sem fome
sem guerras e cheio de rosas. 
Quero ver o povo sendo povo


Que aqueles que vivem da ilusão,
ouvindo o seu próprio eco, 
desçam dos tronos porque a alegria 
dos reis, imperadores e ditadores 
só existe na fantasia. 
 – Que todos sejam apenas povo

Sérgio Mattos. 1979


Conheci este escritor brasileiro através do blog da nossa Amiga Tais Luso  - Porto das Crónicas onde ela publicou um belo poema de Sergio Mattos. Fui pesquisar e encontrei  outros trabalhos poéticos que me agradaram . Escolhi este para partilhar com os meus amigos Espero que gostem

Obrigada Taís!


Se  dermos as mãos, se soubermos ser um povo unido, com certeza , a vida será mais fácil para todos

Emília Pinto

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

OUTONO

 


FAMÍLIA DESENCONTRADA

O Verão é um senhor gordo, sentado na varanda, 
suando em bicas e reclamando cerveja. 

 O Outono é um tio solteirão que mora lá em cima no sótão e a toda hora protesta aos gritos: 
"Que barulho é este na escada?!" 

 O Inverno é o vovozinho trêmulo, 
com a boina enterrada até os olhos, 
a manta enrolada nos queixos e sempre resmungando: 
"Eu não passo deste agosto, eu não passo deste agosto..."

 A Primavera, em contrapartida - é ela quem salva a honra da família!
é uma menininha pulando na corda 
cabelos ao vento pulando e cantando 
debaixo da chuva 
curtindo o frescor da chuva que desce do céu 
o cheiro da terra que sobe do chão 
o tapa do vento cara molhada! 
 
Oh! a alegria do vento desgrenhando as árvores 
revirando os pobres guarda-chuvas 
erguendo saias! 
A alegria da chuva a cantar nas vidraças sob as vaias do vento... 
Enquanto - desafiando o vento, 
a chuva, desafiando tudo - no meio da praça 
a menininha canta 
a alegria da vida 
a alegria da vida!

Mário Quintana


Há muito que dizemos que as estações do ano estão bastante " baralhadas ", devido  às alterações climáticas  e aqui, neste poema, vemos Mário Quintana, com bastante humos a falar desta " família ", onde ninguém se entende. Também nós, reclamamos sempre...nunca estamos satisfeitos com o clima.

Achei muito engraçado este poema, Amigos! 

Emília Pinto

terça-feira, 21 de setembro de 2021

CONTINUAR....QUE ACHAM?

 

Também dizia ela  : " Minha mãe sempre costurou a vida com fios de ferro "


e, como há muitas  mulheres, muitas mães que ainda têm de" costurar a vida  com fios de ferro ", achei que valia a pena partilhar mais este belo poema de Conceição Evaristo


DE MÃE

 

O cuidado de minha poesia 
aprendi foi de mãe, 
mulher de pôr reparo nas coisas, 
e de assuntar a vida. 

A brandura de minha fala 
na violência de meus ditos 
ganhei de mãe, 
mulher prenhe de dizeres, 
fecundados na boca do mundo. 

Foi de mãe todo o meu tesouro 
veio dela todo o meu ganho 
mulher sapiência, yabá, 
do fogo tirava água 
do pranto criava consolo. 

Foi de mãe esse meio riso
dado para esconder 
alegria inteira


Espero que gostem e que me desculpem a repetição.

Emília Pinto