sábado, 9 de janeiro de 2021

E CONTINUA .....

Imagem Pixabay



 Humanidade às Cegas 


Tanto jornal, tanta rádio, tanta agência de informações, e nunca a humanidade viveu tão às cegas.
 Cada hora que passa é um enigma camuflado por mil explicações. 
A verdade, agora, é uma espécie de sombra da mentira. 
E como qualquer de nós procura quase sempre apenas o concreto, cada coisa que toca deixa-lhe nas mãos o simples negativo da sua realidade. 

 Miguel Torga, in "Diário (1948)"


Que diria Miguel Torga se vivesse agora? Infelizmente....que a cegueira continua...

SAÚDE, AMIGOS !

Emília Pinto

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

ANO NOVO

Imagem- Pixabay


 Para você ganhar belíssimo Ano Novo
 cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, 
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
 (mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano 
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; 
novo até no coração das coisas menos percebidas 
(a começar pelo seu interior) 
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, 
mas com ele se come, se passeia, se ama, 
se compreende, se trabalha, 
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
 não precisa expedir nem receber mensagens 
(planta recebe mensagens? passa telegramas?) 

Não precisa 
fazer lista de boas intenções 
para arquivá-las na gaveta. 
Não precisa chorar 
arrependido pelas besteiras consumadas 
nem parvamente acreditar 
que por decreto de esperança 
a partir de janeiro as coisas mudem 
e seja tudo claridade, recompensa, 
justiça entre os homens e as nações, 
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, 
direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver. 

Para ganhar um Ano Novo 
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo, 
eu sei que não é fácil, 
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você 
que o Ano Novo cochila e 
espera desde sempre. 

 Carlos Drummond de Andrade - RECEITA DE ANO NOVO


Queridos amigos, agradecendo todo o carinho recebido durante este ano que está prestes a terminar, deixo este belíssimo poema , com a receita certa para que o ano 2021 seja de facto novo.  O que espero dele e o que vos desejo a todos é SAÚDE, pois sem esse bem precioso a vida perde todo o sentido Façamos o nosso melhor , a cada dia que a vida nos conceder

Um beijinho e obrigada!

Emília Pinto

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

FELIZ NATAL


 


Queridos Amigos, quero desejar a todos um Bom Natal, com paz,  alegria  e , principalmente, com saúde

 Gostaria também de vos agradecer todo o carinho que me têm dedicado há já tantos anos 

Um beijinho e 

BOAS FESTAS

Emília Pinto




quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

NATAL

Imagem- pixabay


APRENDIZAGENS

 Era cromada e preta a bicicleta,
 trazia um laço largo no volante circulando o Natal
 e rodas generosas como parecia o mundo

 Eu, na manhã seguinte, sem saber sustentar a rota nivelada,
 o meu pai a meu lado, segurando o assento,
 a sua mão: aceso fio de prumo,
 em acesa confiança 

Depois, era-lhe a voz entrecortada
pelo puro cansaço de correr, 
tentando harmonizar a bicicleta 

Hoje, muitos anos depois de gestos paralelos,
a minha filha sobre outras estradas, 
a minha mão corrigindo o desvio de mais modernas rodas,
entendo finalmente que era emoção o que se ouvia
na voz interrompida do meu pai: 

o medo que eu caísse, mesmo sabendo que eram curtas as quedas,
mas sobretudo a ternura de me ver ali, 
a entrar no mundo dos crescidos,
em equilíbrio débil, 
rente à saída circular da infância 
 
Ana Luisa Amara

Ana Luísa Amaral venceu o prémio literário espanhol Leteo, que estava suspenso desde 2017, e cuja entrega será realizada no dia 16 de outubro no Auditório Ciudad de León
É actualmente professora de literatura e cultura inglesa e americana na faculdade de letras do Porto 

Queridos Amigos, temos, dentro de pouco tempo, a festa mais esperada do ano, principalmente pelas crianças; vai ser um Natal muito diferente, estranho, triste....mas....não podemos desanimar, porque o que importa é a saúde; outros natais teremos, se a vida assim o permitir e, alegremo-nos com aquela criança que, feliz, bem em frente à nossa janela , aprende a andar na bicicleta que o " menino Jesus " deixou no sapatinho. É tempo de aprender que podemos celebrar o nascimento de Jesus em qualquer dia do ano; é tempo de aprender que,  em qualquer momento, podemos fazer uma criança feliz; é tempo de aprender que a família deve estar unida sempre e não só no dia de Nata


SAÚDE, Amigos

Emília Pinto

sábado, 21 de novembro de 2020

DEIXAI....

Imagem- pixabay 


 Tenho a pedir-vos que não reutilizeis mais nada,

Este edifício junto à praia,
deixai-o entregue à ruína, 
às folhas do milho, 
ao ar salgado. 

Que as crianças possam tropeçar nas lajes soltas
e no átrio ecoe, como uma pedreira, 
o desejo de muitas mãos. 

Deixai dormir as mariposas dentro de lâmpadas partidas 
e as formigas engrossarem pelos cantos 
como sal. 

Não inventeis mais nada, 
nem formas eloquentes de evitar que o bronze oxide. 
Aceitai o suor do tempo. 
Que algumas coisas apodreçam. 

Que os elefantes atravessem a planície. 
Que as veias rebentem do esforço de permanecer em pé
E que nem tudo se sustente como a rosa
se sustenta de florir. 

Deixai, deixai os vários pisos incomunicáveis, 
o desvão ser cortejado pelo giz dos aviões, 
que a lua pouse ali aberto o crânio,
que lhe bata o sol. 

Ainda são precisos os templos 
onde o pó seja gentil 
e incensado 
como os pés pela caruma dos pinhais

Poema de Andreia C Faria
in Singularidade- Poesia e etc


Conheci esta jovem escritora no blog do nosso Amigo Juvenal Nunes, PALAVRAS ALADAS. e decidi conhecê-la melhor. Escolhi este poema para partilhar com os meus amigos. Espero que gostem!

Emília Pinto 

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sábado, 7 de novembro de 2020

UM MUNDO COM MENOS



 

Imagem- pixabay


" Minha infância foi a comum da classe média brasileira de então. Se eu tivesse de identificar a grande diferença entre ser uma criança em 1970 e hoje, no mesmo patamar social, apontaria para a variedade atual. Variedade do quê? Tudo.

Sobre a mesa da nossa cozinha repousavam bananas, laranjas, ocasionalmente maçãs.....Surgia de quando em vez um tipo de mamão amarelo e algum melão, Nada de kiwis ou da bela e insípida fruta- dragão. Desconhecíamos physalis. Vi a minha primeira lichia já doutor. Havia chocolates. Eram sempre doces e com leite......hoje...com leite, com pimenta, com grãos de flor de sal, etc, etc.....

Eu usava um calçado esportivo Ki-chute....hoje, uma prateleira de tênis na loja é uma festa de cores cada vez mais impressionantes. É difícil escolher agora, em parte porque ficaram mais caros, em parte porque trazem excesso de informações....

O desejo de consumo existe em todos os grupos sociais, ainda que nem todos possam atendê-lo, Zygmund Bauman chega a sugerir que as lojas sejam denominadas farmácias, porque oferecem remédios para vários males. Está triste hoje? Compre! Está eufórico? Compre! Está com tédio? Compre! O mundo da internet tem um efeito secundário importante, Ele escancara a possibilidade de tudo para todos, Mesmo que eu não possa comprar X ou Y estou exposto às ofertas.....

Havia diferenças sociais ( inclusive maiores do que as de hoje ) quando eu tinha 7 anos. Havia pobres e ricos e , provavelmente, um maior conformismo com as desigualdades. É difícil comparar épocas. Queríamos coisas e desejávamos consumir. Tenho a sensação subjetiva de que aceitávamos melhor a recusa da nossa vontade. Não era necessário, parece, que as crianças fossem intensamente felizes 24 horas por dia....

Como explicar que a diminuição visível da desigualdade de renda em alguns anos deste século não foi acompanhada de uma queda de furtos ou roubos? Devemos levar em conta que a força do consumo aumentou e nem sempre o crime é famélico. A lei é quebrada  pela busca de status, por um celular mais avançado e pelo tênis importado. Matamos e morremos por logomarcas e seu valor simbólico. Uns estão entediados pelo excesso e outros ressentidos pela falta. Ambos constituem uma dupla complicada para um projeto nacional."


Excertos do capítulo Um Mundo com menos, do livro O Coração das coisas  de 

Leandro Karnal


Amigos, muito haveria a transcrever deste capítulo, mas ficaria um post muito longo. Estes

 excertos bastam para partilhar a mensagem que dele retirei. Estes tempo de pandemia têm-nos forçado a viver com menos, inclusive, com menos manifestações de afecto e esta  é a pior das carências.  Não creio que algo vá mudar na mentalidade humana, mas temos que manter a esperança.... 

temos de aprender a viver com menos, aliás há muito que esse aprendizado era necessário


Emília Pinto.   

 

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sábado, 24 de outubro de 2020

O MEDO

 


Letra

Provisoriamente não cantaremos o amor
que se refugiou mais abaixo dos subterranêos
Cantaremos o medo que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe, 
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro
o medo grande dos sertões, dos mares, do deserto
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo do depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas

Carlos Drummond de Andrade

Significado e importância do poema Congresso Internacional do Medo


Carregando uma forte e pesada reflexão crítica, a composição vem dar voz à falta de esperança que invadia os indivíduos durante a década de 40 e também nos tempos que se seguiram. Na verdade, os traumas daquele período histórico e as mazelas que ele deixou nos indivíduos acabaram se perpetuando através do tempo e permanecem na nossa história coletiva. Assim, décadas mais tarde, continuamos sendo assombrados pelo terror e a crueldade do conflito que abalou o mundo. Mais
do que uma composição poética, trata-se do desabafo de um sujeito que precisa sobreviver numa época de mudanças bruscas e violentas.

in- Cultura Genial




Não estamos a viver uma guerra mundial, mas, estamos a travar uma luta com um inimigo invisivel que está a espalhar o medo pelo mundo inteiro O medo está a ser internacional, global e o que é pior, sabemos muito pouco sobre o nosso inimigo.

Emília Pinto