quinta-feira, 5 de maio de 2016

AMÁLIA CANTA....





....A TROVA DO VENTO QUE PASSA

Pergunto ao vento que passa
 notícias do meu país
 e o vento cala a desgraça
 o vento nada me diz.

 Pergunto aos rios que levam
 tanto sonho à flor das águas
 e os rios não me sossegam
 levam sonhos deixam mágoas.

 Levam sonhos deixam mágoas
 ai rios do meu país
 minha pátria à flor das águas
 para onde vais? Ninguém diz.

 Se o verde trevo desfolhas
 pede notícias e diz
 ao trevo de quatro folhas
 que morro por meu país.

 Pergunto à gente que passa
 por que vai de olhos no chão.
 Silêncio - é tudo o que tem
 quem vive na servidão.

 Vi florir os verdes ramos direitos
 e ao céu voltados.
 E a quem gosta de ter amos
 sempre os ombros curvados.

 E o vento não me diz nada
 ninguém diz nada de novo.
 Vi minha pátria pregada
 nos braços em cruz do povo.

 Vi meu poema na margem dos rios
 que vão pró mar
 como quem ama a viagem
 mas tem sempre de ficar.

 Vi navios a partir (Portugal à flor das águas)
 vi minha trova florir (verdes folhas verdes mágoas).
 Há quem te queira ignorada
 e fale pátria em teu nome.


 Eu vi-te crucificada
 nos braços negros da fome.
 E o vento não me diz nada
 só o silêncio persiste.

 Vi minha pátria parada
 à beira de um rio triste.
 Ninguém diz nada de novo
 se notícias vou pedindo nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo

. E a noite cresce por dentro
 dos homens do meu país.
 Peço notícias ao vento
 e o vento nada me diz.

 Mas há sempre uma candeia
 dentro da própria desgraça
 há sempre alguém que semeia
 canções no vento que passa.

 Mesmo na noite mais triste
 em tempo de servidão
 há sempre alguém que resiste
 há sempre alguém que diz não.

 Manuel Alegre, in 'Praça da Canção'

As minhas amigas Maria (.Lilasdavioleta )  e Mariazita ( A Casa da Mariquinhas ) escolheram este poema como um dos mais bonitos de Manuel Alegre. Como não o conhecia e como, creio, muitos dos meus amigos do Brasil também não o conheçam, resolvi partilhá-lo.

Amigas, agradeço-vos a " dica ", porque de facto é muito bonito. Cantado pela Amália fica ainda mais belo.

Emília Pinto

terça-feira, 26 de abril de 2016

AGORA MESMO





 Está gente a morrer agora mesmo em qualquer lado
 Está gente a morrer e nós também

 Está gente a despedir-se sem saber que para Sempre
 Este som já passou Este gesto também

 Ninguém se banha duas vezes no mesmo instante Tu próprio te despedes de ti próprio Não és o mesmo que escreveu o verso atrás
 Já estás diferente neste verso e vais com ele

 Os amantes agarram-se desesperadamente
 Eis como se beijam e mordem e por vezes choram

 Mais do que ninguém eles sabem que estão a [despedir-se
 A Terra gira e nós também
 A Terra morre e nós Também

 Não é possível parar o turbilhão Há um ciclone invisível em cada instante Os pássaros voam sobre a própria despedida As folhas vão-se e nós Também

 Não é vento
 É movimento fluir do tempo amor e morte

 Agora mesmo e para todo o sempre
 Amen...

   Manuel Alegre, in "Chegar Aqui" //


Manuel Alegre de Melo Duarte nasceu a 12 de Maio de 1936 em Águeda. Estudou Direito na Universidade de Coimbra, onde foi um activo dirigente estudantil. Apoiou a candidatura do General Humberto Delgado. Foi fundador do CITAC – Centro de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, membro do TEUC – Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra, campeão nacional de natação e atleta internacional da Associação Académica de Coimbra. Dirigiu o jornal A Briosa, foi redactor da revista Vértice e colaborador de Via Latina.
A sua tomada de posição sobre a ditadura e a guerra colonial levam o regime de Salazar a chamá-lo para o serviço militar em 1961, sendo colocado nos Açores, onde tenta uma ocupação da ilha de S. Miguel, com Melo Antunes. Em 1962 é mobilizado para Angola, onde dirige uma tentativa pioneira de revolta militar. É preso pela PIDE em Luanda, em 1963, durante 6 meses. Na cadeia conhece escritores angolanos como Luandino Vieira, António Jacinto e António Cardoso. Colocado com residência fixa em Coimbra, acaba por passar à clandestinidade e sair para o exílio em 1964.
Passa dez anos exilado em Argel, onde é dirigente da Frente Patriótica de Libertação Nacional. Aos microfones da emissora A Voz da Liberdade, a sua voz converte-se num símbolo de resistência e liberdade. Entretanto, os seus dois primeiros livros, Praça da Canção(1965) e O Canto e as Armas (1967) são apreendidos pela censura, mas passam de mão em mão em cópias clandestinas, manuscritas ou dactilografadas. Poemas seus, cantados, entre outros, por Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire e Luís Cília, tornam-se emblemáticos da luta pela liberdade. Regressa finalmente a Portugal em 2 de Maio de 1974, dias após o 25 de Abril.

O Prémio Vida Literária 2015/1016 é entregue no dia 25 de Abril, ao escritor Manuel Alegre, em Lisboa pela Associação Portuguesa de Escritores (APE), que instituiu o galardão. 


Acho que foi em data  oportuna visto que Manuel Alegre muito lutou  para que a ditadura acabasse.

Emília Pinto



segunda-feira, 18 de abril de 2016

TELHA DE VIDRO




Quando a moça da cidade chegou veio morar na fazenda, na casa velha... Tão velha! Quem fez aquela casa foi o bisavô..
 Deram-lhe para dormir a camarinha, uma alcova sem luzes, tão escura  mergulhada na tristura de sua treva e de sua única portinha...
 A moça não disse nada, mas mandou buscar na cidade uma telha de vidro... Queria que ficasse iluminada sua camarinha sem claridade...
 Agora, o quarto onde ela mora é o quarto mais alegre da fazenda, tão claro que, ao meio dia, aparece uma renda de arabesco de sol nos ladrilhos vermelhos, que — coitados — tão velhos só hoje é que conhecem a luz do dia...
 A luz branca e fria também se mete às vezes pelo clarão da telha milagrosa... Ou alguma estrela audaciosa careteia no espelho onde a moça se penteia.
 Que linda camarinha! Era tão feia!
 Você me disse um dia que sua vida era toda escuridão cinzenta, fria, sem um luar, sem um clarão... Por que você na experimenta?
 A moça foi tão bem sucedida...
 Ponha uma telha de vidro em sua vida!

RAQUEL DE QUEIROZ.....

nasceu em Fortaleza-Ceará, em 17 de novembro de 1910 e faleceu no Rio de Janeiro em 4 de novembro de 2003. Foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 4 de agosto de 1977 e recebida em 4 de novembro de 1977 pelo acadêmico Adonias Filho. Filha de Daniel de Queiroz e de Clotilde Franklin de Queiroz, descendia, pelo lado materno, da estirpe dos Alencar, parente portanto do autor ilustre de "O Guarani", e, pelo lado paterno, dos Queiroz, família de raízes profundamente lançadas no Quixadá e Beberibe. Em 1917, veio para o Rio de Janeiro, em companhia dos pais que procuravam, nessa migração, fugir dos horrores da terrível seca de 1915, que mais tarde a romancista iria aproveitar como tema de O quinze, seu livro de estréia. No Rio, a família Queiroz pouco se demorou, viajando logo a seguir para Belém do Pará, onde residiu por dois anos. Em 1919, regressou a Fortaleza e, em 1921, matriculou-se no Colégio da Imaculada Conceição, onde fez o curso normal, diplomando-se em 1925, aos 15 anos de idade. Estreou em 1927, com o pseudônimo de Rita de Queiroz, publicando trabalho no jornal O Ceará, de que se tornou afinal redatora efetiva. Em fins de 1930, publicou o romance O quinze, que teve inesperada e funda repercussão no Rio de em São Paulo. Com vinte anos apenas, projetava-se na vida literária do país, agitando a bandeira do romance de fundo social, profundamente realista na sua dramática exposição da luta secular de um povo contra a miséria e a seca.

Tinha-me esquecido por completo desta nossa ( lembrem-se...E o Brasil meu também...) escritora Raquel de Queiroz. No mais recente post da nossa amiga Lúcia,do  Cadeirinhade Arruar ela é citada e isso me levou a homenageá-la aqui no Começar de Novo,com este poema que adorei e que,  com certeza, os meus amigos também vão apreciar. Obrigada, Lúcia

Emília Pinto

sexta-feira, 8 de abril de 2016

A REGRA....






.... Fundamental de Vida


Quando nós dizemos o bem, ou o mal... há uma série de pequenos satélites desses grandes planetas  e que são a pequena bondade, a pequena maldade, a pequena inveja, a pequena dedicação... No fundo é disso que se faz a vida das pessoas, ou seja, de fraquezas, de debilidades... Por outro lado, para as pessoas para quem isto tem alguma importância, é importante ter como regra fundamental de vida não fazer mal a outrem. A partir do momento em que tenhamos a preocupação de respeitar esta simples regra de convivência humana, não vale a pena perdermo-nos em grandes filosofias sobre o bem e sobre o mal. «Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti» parece um ponto de vista egoísta, mas é o único do género por onde se chega não ao egoísmo mas à relação humana.


 José Saramago, in "Revista Diário da Madeira, Junho 1994"


Gostaria de vos contar um GRANDE PORMENOR que guardei até hoje e que aconteceu quando eu tinha 15 anos de idade. Estava internada num colégio de freiras e um dia o padre que nos ensinava religião e moral disse: " para se ser santo não é preciso fazer milagres; basta cumprir o nosso dever. " Simples, não é? Tão simples que não esqueci até hoje  e muitas vezes me lembro dessa frase


Este texto de Saramago mais uma vez me fez recordar esse PORMENOR, porque aqui ele nos mostra como seria fácil a convivência humana se soubessemos dar  as mão uns aos outros e ter como lema de vida " NÃO FAZER MAL A OUTREM "


Emília Pinto

segunda-feira, 28 de março de 2016

A SABEDORIA .....




.... da Velhice


 Nós, os novos, seremos velhos um dia. Essa é mesmo a melhor saída para a nossa vida, sinal de que atingimos uma sabedoria maior, prémio por termos alcançado o topo da hierarquia da existência.
 Não é o tempo que nos faz auferir esse estatuto, mas o tempo dá-nos mais tempo para fazermos alguma coisa com ele e assim aprender para saber mais. Ninguém sabe mais do que um velho.
Ao lado do seu avô, um doutorado é um ignorante e, se afirmar saber mais do que aquelas duas gerações de diferença, é um ignorante imbecil. É o que não falta entre nós, os novos. Dá-se mais valor ao que se aprende nas faculdades do que ao que se aprende na vida, dá-se mais valor à teoria do que à prática. Coitados de nós. E depois não nos lembramos da idade, achamos que nos passa ao lado e por isso não reconhecemos aos velhos o estatuto de sábios e o respeito que lhes é devido. Somos imbecis. A maior parte de nós é tonta. Só isso justifica o abandono. Um velho é um mapa de conhecimento, tem dentro dele muitas estradas principais, muitas vias secundárias e muitos atalhos, muitos becos sem saída, muitas praias, muitos desfiladeiros, muito amor e severas tempestades.


 Gustavo Santos, in 'O Caminho'


E é tanto o abandono!!!!




GUSTAVO SANTOS


Gustavo Santos, (Lisboa, 27 de Maio de 1977, Portugal), é um ator, apresentador, bailarino profissional, escritor e modelo.
 É conhecido por ser o actual apresentador do programa "Querido, mudei a casa" e pelo seu papel como agente da Euroforce na telenovela Vingança, papel que foi elogiado por personalidades como Rogério Samora ou António Calvário. O seu último livro "Agarra-o agora", é já um best-seller no universo nacional de escritores motivacionais. O livro já está na 10ª edição.
 Interpretou vários papeis na série "Malucos na Praia". Desde 2002 que é o presidente da Sociedade Portuguesa de Doentes do Síndrome de Asperger.
 Foi votado pela revista "Egoísta" como a personalidade do ano em 2014, por causa dos seus vídeos motivacionais


Emília Pinto

quinta-feira, 17 de março de 2016

BRASIL...MEU TAMBÉM




O Dever do Povo’ - texto proferido em 11 de novembro de 1914, por ocasião da manifestação popular realizada às vésperas de terminar o governo do marechal Hermes da Fonseca e se iniciar o de Venceslau Brás:


 “Concidadãos: A eloqüência destas vozes, tantas e tão elevadas, que baixam das alturas do espírito; este rumor, que sobe das entranhas da terra; essa multidão, cuja massa evoca e condensa o concurso de milhões de almas ausentes; este espetáculo que já se parece representar no cenário do futuro; todas estas impressões de um passado que se despede, todos estes sinais de um mundo novo, que assoma no horizonte banhado em indecisa claridade; tudo nos está mostrando que a consciência brasileira desperta, que a consciência brasileira está viva, que a consciência brasileira reergue, que a consciência brasileira não se acha mais disposta a sofrer os coices das brutalidades, imbecilidades e ferocidades que convertem as repúblicas bastardas em espojadouros de instintos abjetos, costumes descarados e paixões vergonhosas.
 Povo brasileiro! Reclamai, e vos escutarão; exigi, e tereis; ordenai, e sereis obedecido; sabei querer, e tudo vos cederá. Uma nação não se deve recear senão da sua própria inconsciência, da sua própria relaxação, da sua própria cobardia. Não corrais, como as crianças, de carochas, de cucas, de almas do outro mundo.
 Sois o povo. Sois a nação. Sois o Brasil. Ante a vossa vontade, ante a vossa autoridade, ante a vossa majestade, mandões, facções, minhocões não valem nada. Soprai, e vereis como rebentam as bolhas de sabão.
 Adotastes, nas vossas instituições escritas, um governo de legalidade, um governo de justiça, um governo de liberdade, um governo de soberania popular. E tudo vos tiraram. Despiram-vos a justiça, puseram-vos fora da lei. È tudo o vosso patrimônio moral que se foi. Fazei questão da sua posse. Empreendei a sua reconquista. Ponde a vida e a morte na sua consolidação definitiva. Se em quatro anos o perdestes, não há razão para que em quatro anos o não tenhais reavido, ao menos nos elementos capitais da sua recomposição.
 Mocidade brasileira! Sede paciente, sede cordato, sede refletido. Mas não sejais descuidado, não sejais indiferente, não deixeis de ser firme, resoluto, intrépido na obra da vossa regeneração, na reivindicação dos vossos foros, na guerra aos corrompidos, aos parasitas, ao tráfico dos brancos, ao regime da senzala, do feitor e do vergalh

Sabei alcançar para vós o que soubestes conseguir para os africanos: a redenção, a reaquisição de vós mesmos, o vosso lugar limpo na comunhão da humanidade livre

Parte de um texto de RUI BARBOSA


In Justocantins


Hoje o meu post é dedicado ao povo brasileiro que está a passar momentos difíceis.. Um povo do qual eu me considero parte e que muito contribuiu para o meu crescimento como pessoa.
Mas não é só o Brasil a sofrer com os desgovernos dos governantes; neste nosso pequenino Portugal a corrupção, infelizmente, também é grande.

Emília Pinto

terça-feira, 8 de março de 2016

OS LÍRIOS





"Se naquele instante - refletiu Eugênio - caísse na Terra um habitante de Marte, havia de ficar embasbacado ao verificar que num dia tão maravilhosamente belo e macio, de sol tão dourado, os homens em sua maioria estavam metidos em escritórios, oficinas, fábricas...
 E se perguntasse a qualquer um deles: 'Homem, por que trabalhas com tanta fúria durante todas as horas de sol?' - ouviria esta resposta singular: 'Para ganhar a vida'. E no entanto a vida ali estava a se oferecer toda, numa gratuidade milagrosa.
 Os homens viviam tão ofuscados por desejos ambiciosos que nem sequer davam por ela. Nem com todas as conquistas da inteligência tinham descoberto um meio de trabalhar menos e viver mais. Agitavam-se na Terra e não se conheciam uns aos outros, não se amavam como deviam
. A competição os transformava em inimigos. E havia muitos séculos, tinham crucificado um profeta que se esforçava por lhes mostrar que eles eram irmãos, apenas e sempre irmãos"


 " É indispensável trabalhar, pois um mundo de criaturas passivas seria também triste e sem beleza. Precisamos, entretanto, dar um sentido humano às nossas construções. E quando o amor ao dinheiro, ao sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu."


 Érico Veríssimo ( do livro Olhai os Lírios do Campo )


 Coloquei em destaque estas últimas palavras de Érico Veríssimo, porque, perante elas, não me cabe dizer mais nada


. Emília Pinto