terça-feira, 5 de junho de 2018

SERENIDADE


       ( imagem retirada da net )


 A serenidade não é feita nem de troça nem de narcisismo, é conhecimento supremo e amor, afirmação da realidade, atenção desperta junto à borda dos grandes fundos e de todos os abismos; é uma virtude dos santos e dos cavaleiros, é indestrutível e cresce com a idade e a aproximação da morte. É o segredo da beleza e a verdadeira substância de toda a arte. O poeta que celebra, na dança dos seus versos, as magnificências e os terrores da vida, o músico que lhes dá os tons de duma pura presença, trazem-nos a luz; aumentam a alegria e a clareza sobre a Terra, mesmo se primeiro nos fazem passar por lágrimas e emoções dolorosas. Talvez o poeta cujos versos nos encantam tenha sido um triste solitário, e o músico um sonhador melancólico: isso não impede que as suas obras participem da serenidade dos deuses e das estrelas. O que eles nos dão, não são mais as suas trevas, a sua dor ou o seu medo, é uma gota de luz pura, de eterna serenidade. Mesmo quando povos inteiros, línguas inteiras, procuram explorar as profundezas cósmicas em mitos, cosmogonias, religiões, o último e supremo termo que poderão atingir é essa serenidade.


 Hermann Hesse, in 'O Jogo das Contas de Vidro'



 Hermann Hesse (1877-1962) foi um importante escritor alemão, autor de importantes obras, como, "Lobo da Estepe" e "O Jogo das Contas de Vidro". Prêmio Nobel de Literatura de 1946. Hermann Karl Hesse nasceu em Calw, Alemanha, no dia 2 de julho de 1877. Descendente de uma família de missionários pietistas, desde cedo foi preparado para seguir o mesmo caminho. Em 1881, quando tinha quatro anos a família mudou-se para a Basileia, na Suíça, onde permaneceu por seis anos. De volta a Calw frequentou a Escola em Göppingen. Em 1891 entrou para o seminário Teológico da Abadia de Maulbronn. Durante sua permanência no seminário escreveu algumas peças de teatro em latim, que apresentava junto com alguns colegas. As cartas que enviava aos pais eram em forma de rimas e muitas em latim. Redigiu alguns ensaios e traduziu poesia grega clássica para o alemão. Lutando contra a religião, as dúvidas, anseios e aflições, mostrava-se um jovem rebelde. Depois de sete meses fugiu do seminário, sendo encontrado depois de alguns dias perambulando pelo campo, confuso e transtornado. Começou então uma jornada através de instituições e escolas. Atravessou intensos conflitos com os pais. Após o tratamento, em 1893 concluiu sua escolaridade. Hermann Hesse aspirava ser poeta, mas começou um aprendizado em uma fábrica de relógios em Calw. A monotonia do trabalho fez com que ele se voltasse para as atividades espirituais.


Tocou- me muito este texto, porque já estou na fase de ambicionar, simplesmente, SERENIDADE. É uma benção consegui-la, porque na sociedade em que vivemos é preciso muita força para nos mantermos serenos



Emília Pinto

segunda-feira, 21 de maio de 2018

HOMENAGEM



Se penso, existo; se falo, existo para os outros, com os outros.
A necessidade é o lugar do encontro.
Procuro os outros para me lembrar que existo. E existo, porque os outros me reconhecem como seu igual. Por isso, a minha vida é parte de outras vidas, como um sorriso é parte de uma alegria breve.
Breve é a vida e o seu rasto.
 A posteridade é apenas a memória acesa de uma vela efémera.
 Para que a memória não se apague, temos que nos dar uns aos outros, como elos de uma corrente ou pedras de uma catedral.

 A necessidade de sobrevivência é o pão da fraternidade.

O futuro é uma construção colectiva.

 António Arnaut, in 'As Noites Afluentes'

E a sua memória não se apagará, porque ele deu-se muito aos outros. Considerado o pai do SISTEMA NACIONAL DE SAÚDE, faleceu hoje este GRANDE SENHOR, aos 82 anos. Para o nosso  país é uma grande perda.



Foi preciso este triste acontecimento para que eu conhecesse este belo texto. Tenho perdido muito, de certeza.

Emília Pinto

sexta-feira, 11 de maio de 2018

MERCY !





"Eu nasci esta manhã / O meu nome é Mercy / No meio do mar / Entre dois países, Mercy":

 são estas as primeiras estrofes de "Mercy", canção vencedora do Destination Eurovision e representante de França no Festival Eurovisão 2018. A protagonista da canção, Mercy, nasceu a 21 de março de 2017, no SOS Méditerranée, um barco de auxílio, que salvou cerca de mil emigrantes ilegais que tentavam atravessar o Mar Mediterrâneo da Líbia para Itália. No barco de emigrantes ilegais estava uma mulher grávida, Taiwa, que entrou em trabalho de parto durante a viagem. Depois do socorro prestado pelo SOS Méditerranée, onde estavam diversos membros dos Médicos Sem Fronteiras, a nigeriana deu à luz Mercy, quando o barco desembarcou em Catania, na Sicília. A história do nascimento da pequena criança foi relatada no Twitter pelo jornalista Grégory Leclerc, que estava no barco de salvamento. Nesse mesmo dia, Emilie Satt e Jean-Karl Lucas estavam em estúdio quando conheceram a história do nascimento de Mercy: "Estavamos à procura de inspiração para uma nova canção baseada em assuntos atuais. Começámos a escrever o texto naquela tarde e terminámos no dia seguinte (...) O texto dizia-nos algo bastante forte. A canção não é moralista nem política: apenas coloca um rosto nos migrantes" afirmou Emilie Satt, vocalista do duo.

 Felizmente, há GENTE muito boa que se preocupa com o drama dos refugiados e é capaz até de trazer para o Festival da Eurovisão uma canção  dedicada a esta menina linda que hoje vive com a mãe num campo de refugiados Para mim, a França é a grande vencedora.

 Emília Pinto

terça-feira, 1 de maio de 2018

MINHA MÃE








Queridos amigos, hoje, dia dos trabalhadores, deixo aqui a minha homenagem a todas as mães que terão o seu dia especial no próximo Domingo. Com certeza acharão estranha esta minha decisão, mas...talvez não, No post de hoje da nossa amiga Olinda,  do XAILE DE SEDA há um belo poema alertando-nos de que " É PRECISO AVISAR ", tendo também no anterior chamado a nossa atenção para o drama dos migrantes que continuam a chegar à costa italiana, fugidos da guerra, da fome e de perseguições políticas. É " Preciso avisar ", é preciso continuar a lembrar que o problema gravíssimo  dessa Gente continua, apesar de já não abrir os telejornais   Eram trabalhadores , homens e mulheres que foram despojados de todos os seus direitos e que agora só querem uma nova oportunidade; são mulheres que, sem medo, atravessam os mares tentando a todo o custo salvar os seus filhos  e, infelizmente, são muitas, muitas crianças que fogem sozinhas depois de terem perdido as suas mães. Graças à nossa amiga Olinda, resolvi que a minha homenagem desta vez seria para esses heróis, para esses trabalhadores e para essas mulheres, trabalhadoras também, mães  guerreiras que colocam sempre em primeiro lugar a vida dos seus filhos.

Para elas é urgente " mais flores, mais flores e, sempre mais flores...."( Xaile de Seda )

Obrigada, Olinda, por nos teres levado a pensar neste drama que parece já completamente esquecido por aqueles que  poderiam, pelo menos, amenizá-lo, se tivessem VONTADE.

Para as minhas amigas deixo um beijinho muito especial e os votos de que tenham um DIA DA MÃE muito feliz. e que assim sejam todos os outros.

Apesar de, só no segundo domingo de Maio se festejar o Dia da Mãe, no Brasil, deixo já para as minhas amigas brasileiras todo o meu carinho e também muitas flores...muitas e muitas flores...sempre

Emília Pinto

sábado, 14 de abril de 2018

TERRA ADUBADA

imagem retirada da net


 Por detrás das árvores não se escondem faunos, não.
 Por detrás das árvores escondem-se os soldados
 com granadas de mão

.
 As árvores são belas com os troncos dourados.
São boas e largas para esconder soldados.

 Não é o vento que rumoreja nas folhas,
 não é o vento, não.
São os corpos dos soldados rastejando no chão.

 O brilho súbito não é do limbo das folhas verdes reluzentes.
 É das lâminas das facas que os soldados apertam entre os dentes.

 As rubras flores vermelhas não são papoilas, não.
 É o sangue dos soldados que está vertido no chão.

 Não são vespas, nem besoiros, nem pássaros a assobiar.
 São os silvos das balas cortando a espessura do ar.

 Depois os lavradores
 rasgarão a terra com a lâmina aguda dos arados,
e a terra dará vinho e pão
e flores adubada com os corpos dos soldados.

 António Gedeão, in 'Linhas de Força'


E assim será sempre!!! O ser humano não desiste do PODER, imfelizmente

Emília Pinto

terça-feira, 3 de abril de 2018

NOBRE PATRIOTISMO....

Imagem- pixabay


 Há em primeiro lugar o nobre patriotismo dos patriotas: esses amam a pátria, não dedicando-lhe estrofes, mas com a serenidade grave e profunda dos corações fortes. Respeitam a tradição, mas o seu esforço vai todo para a nação viva, a que em torno deles trabalha, produz, pensa e sofre: e, deixando para trás as glórias que ganhámos nas Molucas, ocupam-se da pátria contemporânea, cujo coração bate ao mesmo tempo que o seu, procurando perceber-lhe as aspirações, dirigir-lhe as forças, torná-la mais livre, mais forte, mais culta, mais sábia, mais próspera, e por todas estas nobres qualidades elevá-la entre as nações. Nada do que pertence à pátria lhes é estranho: admiram decerto Afonso Henriques, mas não ficam para todo o sempre petrificados nessa admiração;
vão por entre o povo, educando-o e melhorando-o, procurando-lhe mais trabalho e organizando-lhe mais instrução, promovendo sem descanso os dois bens supremos - ciência e justiça. Põem a pátria acima do interesse, da ambição, da gloríola; e se têm por vezes um fanatismo estreito, a sua mesma paixão diviniza-os. Tudo o que é seu o dão à pátria: sacrificam-lhe vida, trabalho, saúde, força, o melhor de si mesmo. Dão-lhe sobretudo o que as nações necessitam mais, e o que só as faz grandes: dão-lhe a verdade. A verdade em tudo, em história, em arte, em política, nos costumes. Não a adulam, não a iludem; não lhe dizem que ela é grande porque tomou Calecute, dizem-lhe que é pequena porque não tem escolas. Gritam-lhe sem cessar a verdade rude e brutal. Gritam-lhe: - «Tu és pobre, trabalha; tu és ignorante, estuda; tu és fraca, arma-te! E quando tiveres trabalhado, estudado e armado, eu, se for necessário, saberei morrer contigo!» Eis o nobre patriotismo dos patriotas.


 Eça de Queirós, in 'Notas Contemporâneas'


Achei fabuloso este texto do nosso Eça de Queiroz e, se queremos ser verdadeiros PATRIOTAS,   deixemos que o " nosso esforço vá todo para a nação viva " e saibamos abraçar a verdade  e todos aqueles que dão o seu melhor para o bem da nossa "Pátria Contemporanêa ".

Emília Pinto

sexta-feira, 23 de março de 2018

O LIVRO




Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombrosos é, indubitavelmente, o livro.
Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço.
Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.
Em «César e Cleópatra» de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza. (...)
Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro.
O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.


 Jorge Luís Borges, in 'Ensaio: O Livro'


No mês de Março festejou-se o dia da MULHER, o dia do PAI; lembrou-se a POESIA, também a ÁRVORE e a PRIMAVERA começou;  eu pensei: Será que o LIVRO não cabe nestes festejos? Creio que sim!. Então...vamos falar dele?

Emília Pinto