terça-feira, 29 de novembro de 2022

DIALOGAR



 O Constante Diálogo

 

Há tantos diálogos.... 

 Diálogo com o ser amado 

o semelhante 

o diferente  

o indiferente 

o oposto 

o adversário 

o surdo-mudo 

 o possesso 

 o irracional 

 o vegetal 

 o mineral 

 o inominado 

 Diálogo consigo mesmo 

 com a noite 

 os astros 

 os mortos 

 as ideias 

 o sonho 

 o passado 

 o mais que futuro 

 Escolhe teu diálogo 

 tua melhor palavra 

 ou 

teu melhor silêncio. 

Mesmo no silêncio e com o silêncio dialogamos.


Carlos Drummond de Andrade, in Discurso da Primavera


Mais palavras para quê? Aqui já está tudo dito pelo fantástico Carlos Drummond de Andrade

Emília Pinto 



quarta-feira, 16 de novembro de 2022

MENTIRA

 

Imagem da net 


 Uma mentira, fina como um cabelo, perturba para sempre a ordem do mundo. Aquilo que sabemos tem muita importância. Tomamos decisões, vamos por aqui ou por ali, consoante aquilo que sabemos. E tudo o que virá a seguir, o futuro até ao fim dos tempos, será diferente se formos por um lado em vez de irmos por outro. Nascem pessoas devido a insignificâncias, morrem pessoas pelo mesmo motivo. Uma pessoa é uma máquina de coisas a acontecer, possibilidades multiplicadas por possibilidades em todos os instantes do seu tempo. Uma mentira, mesmo que transparente, perturba o entendimento que os outros têm da realidade, leva-os a acreditar que é aquilo que não é. Essa poluição vai turvar- lhes a lógica do mundo. As conclusões a que forem capazes de chegar serão calculadas a partir de um dado falso e, desse ponto em diante, todas as contas serão multiplicações de erros. Uma mentira baralha tudo aquilo em que toca, desequilibra o mundo. É por isso que uma mentira precisa sempre de mentiras novas para se suster. O mundo não lhe dá cobertura. Para alcançar coerência, cada mentira requer a criação apressada de um mundo de mentira que a suporte. É assim que a mentira vai avançando pela verdade adentro, como uma toupeira cega a abrir túneis e câmaras no interior da terra. Quando se abre a boca para libertar uma mentira, a primeira, filha de nada que a justifique, nunca se consegue ter noção completa de onde chegará. Nesse momento, na inocência aparente, com voz de gatinho acabado de nascer, está a soltar-se um predador voraz, não há fronteiras marcadas para a sua fome. Uma mentira pode construir edifícios imensos, levantar cidades; uma mentira pode colocar em movimento milhares de pessoas, pode dar propósito a multidões incalculáveis, cada pontinho a ser uma cabeça com história; uma só mentira pode manter em cativeiro gerações inteiras de pessoas que ainda não nasceram, netos que os avós não são capazes de imaginar, ignorantes da mentira original que os domina.


José Luis Peixoto in "  Em Teu Ventre "

" Uma mentira, fina como um cabelo" pode causar estragos irreparáveis

Emília Pinto 


sexta-feira, 4 de novembro de 2022

CAI A CHUVA.....

 


Imagem Pixabay 



.. 

Cai a chuva no portal, está caindo 
Entre nós e o mundo, essa cortina 
Não a corras, não a rasgues, está caindo 
Fina chuva no portal da nossa vida. 
Gotas caem separando-nos do mundo 
Para vivermos em paz a nossa vida

Cai a chuva no portal, está caindo 
Entre nós e o mundo, essa toalha 
Ela nos cobre, não a rasgues, está caindo 
Chuva fina no portal da nossa casa. 
Por um dia todos longe e nós dormindo 
Lado a lado, como páginas dum livro. 


 Lídia Jorge, ( inédito ) in Citador

Não podemos afastar-nos do mundo para" vivermos em paz a nossa vida," pois fazemos parte dele e, infelizmente, a chuva que cai não tem sido fina, mas, sim, torrencial

Nada conheço da obra de Lídia Jorge, mas, depois de ouvi- la numa entrevista, resolvi pesquisar e descobri este poema que me agradou muito. Espero que gostem!

Emília Pinto










terça-feira, 25 de outubro de 2022

É.... A Vida É....

 

Imagem Pixabay


 Sim 

 Para o Ramon 
 
Não há por que esquecê-la, embora sua chegada seja iminente. 
Cata-se a Vida a cada dia.
Ela é a cada dia. É
Não me sacrifico. 
Inquieto-me. 
Sorrio como empalideci 
na tarde em que soube de supetão 
da sua chegada iminente. Às vezes, me deito de costas para o teto do quarto. 
Braços estendidos transbordam a largura da cama. 
Abrem o corpo em cruz. 
Aguardo a iminência. 
Como se ela acontecesse já. Já. 
Observo-me, sou eu não sendo eu. 
Tenho sido sem ter sido. 
Tento ser sem ter sido. 
Não somos todos? 
Tudo saber e nada conhecer. 
Em céu de brigadeiro 
o avião do corpo se desgovernou num átimo de segundo. 
Felicidade. 
Pergunto à Vida se ainda faz sentido lhe emprestar sentido. 
Responde-me que sim.

 [20/09/2017 Silviano Santiago - Prémio Camões 2022

Extraído da antologia, Tente entender o que tento dizer, in Blog da biblioteca virtual do pensamento social - BVPS

A vida responde sempre...SIM! Faz sentido,,.embora por vezes nos pareça que não

Emília Pinto

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

RECORDAÇÕES

 

Imagem Pixabay


 “Comportamo-nos como se as pessoas de quem gostamos fossem durar para sempre. Em vida não fazemos nunca o esforço consciente de olhar para elas como quem se prepara para lembrá-las. Quando elas desaparecem, não temos delas a memória que nos chegue. Para as lembrar, que é como quem diz, prolongá-las. A memória é o sopro com que os mortos vivem através de nós. Devemos cuidar dela como da vida. Devemos tentar aprender de cor quem amamos. 
Tentar fixar. 
Armazená-las para o dia em que nos fizerem falta.
São pobres as maneiras que temos para o fazer, é tão fraca a memória, que todo o esforço é pouco. Guardá-las é tão difícil. Eu tenho um pequeno truque. 
Quando estou com quem amo, quando tenho a sorte de estar à frente de quem adivinho a saudade de nunca mais a ver, faço de conta que ela morreu, mas voltou mais um único dia, para me dar uma última oportunidade de a rever, olhar de cima a baixo, fazer as perguntas que faltou fazer, reparar em tudo o que não vi; uma última oportunidade de a resguardar e de a reter.  
Funciona "

 Miguel Esteves Cardoso in As Minhas Aventuras Na República Portuguesa 


 Gostei deste texto porque reflecte aquilo que, tantas vezes sentimos depois que as pessoas que amamos se vão...,...ficam as recordações, a saudade e o sentimento de que poderíamos ter feito mais por eles

Emília Pinto

domingo, 2 de outubro de 2022

O OUTONO CONTINUA......

 

.....nesta CANÇÃO

No entardecer da terra, 
O sopro do longo outono 
Amareleceu o chão. 
Um vago vento erra, 
Como um sonho mau num sono, 
Na lívida solidão. 

Soergue as folhas, e pousa 
As folhas volve e revolve 
Esvai-se ainda outra vez. 
Mas a folha não repousa 
E o vento lívido volve 
E expira na lividez. 

Eu já não sou quem era; 
O que eu sonhei, morri-o; 
E mesmo o que hoje sou 
Amanhã direi: quem dera 
Volver a sê-lo! mais frio. 
O vento vago voltou. 

 Fernando Pessoa 

  ..." agora que a primavera adormeceu e o verão se foi embora, lembramo-nos de 3 poemas de outono do poeta que mais amou as palavras e as transformou em arte: Fernando Pessoa."
 in Wescribe 

Dos três, escolhi este, meus Amigos. Espero que gostem

A cada novo instante que a vida me dá, a cada novo outono também eu " já não sou quem era "

Emília Pinto 

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

CANÇÃO DE OUTONO

 

Imagem Pixabay 


Perdoa-me, folha seca, 
não posso cuidar de ti. 
Vim para amar neste mundo, 
e até do amor me perdi. 
De que serviu tecer flores 
pelas areias do chão 
se havia gente dormindo 
sobre o próprio coração? 

E não pude levantá-la! 
Choro pelo que não fiz. 
E pela minha fraqueza 
é que sou triste e infeliz. 
Perdoa-me, folha seca! 
Meus olhos sem força 
estão velando e rogando aqueles 
que não se levantarão... 

Tu és folha de outono 
voante pelo jardim. 
Deixo-te a minha saudade 
- a melhor parte de mim. 
E vou por este caminho, 
certa de que tudo é vão. 
Que tudo é menos que o vento, 
menos que as folhas do chão... 

 Cecília Maireles, Poesia Completa, vol. II


....tudo é vão....tudo é menos que o vento....menos que as folhas no chão... 

Valemos tão pouco e há quem pense ser dono do mundo!!!!

Emília Pinto