sábado, 20 de janeiro de 2024

ESTA GENTE

 Imagem Pixabay


Esta gente cujo rosto 
Às vezes luminoso 
E outras vezes tosco 

Ora me lembra escravos 
Ora me lembra reis 

Faz renascer meu gosto 
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra 
O porco e o milhafre 

Pois a gente que tem 
O rosto desenhado 
Por paciência e fome 
É a gente em quem 
Um país ocupado 
Escreve o seu nome 

E em frente desta gente 
Ignorada e pisada 
Como a pedra do chão 
E mais do que a pedra 
Humilhada e calcada 

Meu canto se renova 
E recomeço a busca 
De um país liberto 
De uma vida limpa 
E de um tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen


ESTA GENTE por cá, bem perto de nós e tanta, tanta por esse mundo fora vive num sofrimento tremendo, não só por falta de liberdade, mas também pela fome, guerras e outras atrocidades. Continua a haver  REIS....continua a haver ESCRAVOS ....

Já um pouco melhor....aqui estou de volta

Emília Pinto 

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

FRATERNIDADE

 Imagem da net

"A ambição envenenou a alma dos homens, ergueu um muro de ódio ao redor do mundo, nos atirou dentro da miséria e também do ódio. 

Desenvolvemos a velocidade mas nos fechamos em nós mesmos. As máquinas que trouxeram mudanças nos deixaram desamparados. Nossos conhecimentos nos deixaram cínicos. Nossa inteligência nos deixou duros e impiedosos.
 
Nós pensamos demais e sentimos muito pouco. Mais do que maquinaria, nós precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de bondade e compreensão. Sem estas qualidades a vida será violenta e estaremos todos perdidos. 
O aeroplano e o rádio nos aproximam, e a própria natureza destes inventos demonstram a divindade do homem. 
 
Exige uma fraternidade universal para a unidade de todos nós.

Charles Chaplin


E onde está essa FRATERNIDADE UNIVERSAL? Viu-se alguma nesta quadra Natalícia , mas, daqui para a frente?

Um Ano de 2024 com saúde para todos vós, queridos Amigos e que a Fraternidade se faça sentir, pelo menos, à nossa volta


Emília Pinto







quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

DIAS DE NATAL


  





Natal. E, só pelo facto de o ser, o mundo parece outro. Auroreal e mágico.
O homem necessita cada vez mais destas datas sagradas. 
Para reencontrar a santidade da vida, deixar vir à tona impulsos religiosos profundos, comer e beber ritualmente, dar e receber presentes, sentir que tem família e amigos, e se ver transfigurado nas ruas por onde habitualmente caminha rasteiro. 
São dias em que estamos em graça, contentes de corpo e lavados de alma, ricos de todos os dons que podem advir de uma comunhão íntima e simultânea com as forças benéficas da terra e do céu
Dons capazes de fazer nascer num estábulo, miraculosamente, sem pai carnal, um Deus de amor e perdão, contra os mais pertinentes argumentos da razão. 


 

Miguel Torga, in 'Diário (1985)




São dias realmente mágicos, em que o " o mundo parece outro ", mas, infelizmente,  depressa tudo volta à triste realidade de guerras e outras misérias humanas

Um Feliz Natal para todos, queridos Amigos, especialmente com saúde e paz.


Emília Pinto

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

RESSENTIMENTO

Imagem pixabay 




Feliz aquele que atravessou a vida ajudando o seu semelhante, 

que não conheceu o medo e se manteve alheio à agressividade e ao ressentimento!
 
É dessa madeira que são esculpidas as figuras ideais, 

que consolam a Humanidade nas situações de sofrimento que ela própria criou. 


Albert Einstein, in  Como vejo o mundo


Um texto pequeno, mas que muito nos diz. Felizmente que, no meio de tanto ressentimento e agressividade, encontramos, ao que eu chamo de Heróis Anónimos que se preocupam em mitigar o sofrimento alheio. Era bom que o mundo vivesse unido e em paz, mas, infelizmente, não é o que vemos

Emília Pinto

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

OS AMIGOS....

 

Imagem Pixabay


 ......Nunca São para as Ocasiões 

Os amigos nunca são para as ocasiões. São para sempre. A ideia utilitária da amizade, como entreajuda, pronto-socorro mútuo, troca de favores, depósito de confiança, sociedade de desabafos, mete nojo. A amizade é puro prazer. Não se pode contaminar com favores e ajudas, leia-se dívidas. Pede-se, dá-se, recebe-se, esquece-se e não se fala mais nisso. A decadência da amizade entre nós deve-se à instrumentalização que tem vindo a sofrer. Transformou-se numa espécie de maçonaria, uma central de cunhas, palavrinhas, cumplicidades e compadrios. É por isso que as amizades se fazem e desfazem como se fossem laços políticos ou comerciais. Se alguém «falta» ou «não corresponde», se não cumpre as obrigações contratuais, é logo condenado como «mau» amigo e sumariamente proscrito. Está tudo doido. Só uma miséria destas obriga a dizer o óbvio: os amigos são as pessoas de que nós gostamos e com quem estamos de vez em quando. Podemos nem sequer darmo-nos muito, ou bem, com elas. Ou gostar mais delas do que elas de nós. Não interessa. A amizade é um gosto egoísta, ou inevitabilidade, o caminho de um coração em roda-livre. Os amigos têm de ser inúteis. Isto é, bastarem só por existir e, maravilhosamente, sobrarem-nos na alma só por quem e como são. O porquê, o onde e o quando não interessam. A amizade não tem ponto de partida, nem percurso, nem objectivo. É impossível lembrarmo-nos de como é que nos tornámos amigos de alguém ou pensarmos no futuro que vamos ter. A glória da amizade é ser apenas presente. É por isso que dura para sempre; porque não contém expectativas nem planos nem ansiedade. 


 Miguel Esteves Cardoso, in  "Explicações de Português" - Citador


Amigos, estamos a viver um período conturbado da política nacional e quando descobri este texto, pensei que seria oportuno, aliás, não só neste contexto, mas em muitos, muitos outros

Emília Pinto

terça-feira, 24 de outubro de 2023

A FALTA DE....

 

Imagem da net



.....Cultura Ética da Nossa Civilização 




Creio que o exagero da atitude puramente intelectual, orientando, muitas vezes, a nossa educação, em ordem exclusiva ao real e à prática, contribuiu para pôr em perigo os valores éticos. Não penso propriamente nos perigos que o progresso técnico trouxe directamente aos homens, mas antes no excesso e confusão de considerações humanas recíprocas, assentes num pensamento essencialmente orientado pelos interesses práticos que vem embotando as relações humanas. O aperfeiçoamento moral e estético é um objectivo a que a arte, mais do que a ciência, deve dedicar os seus esforços. É certo que a compreensão do próximo é de grande importância. Essa compreensão, porém, só pode ser fecunda quando acompanhada do sentimento de que é preciso saber compartilhar a alegria e a dor. Cultivar estes importantes motores de acção é o que compete à religião, depois de libertada da superstição. Nesse sentido, a religião toma um papel importante na educação, papel este que só em casos raros e pouco sistematicamente se tem tomado em consideração. O terrível problema magno da situação política mundial é devido em grande parte àquela falta da nossa civilização. Sem «cultura ética» , não há salvação para os homens

Einstein in " Como vejo o mundo "


Parece ter sido escrito hoje, este texto, não acham? Uma prova de que a mentalidade humana não muda...


Emília Pinto

terça-feira, 3 de outubro de 2023

PAÍS EMERSO...CÂNTICO

 

Os previdentes e os presidentes tomam de ponta 
Os inocentes que têm pressa de voar 
Os revoltados fazem de conta fazem de conta... 
Os revoltantes fazem as contas de somar. 

Embebo-me na solidão como uma esponja 
Por becos que me conduzem a hospitais. 
O medo é um tenente que faz a ronda 
E a ronda abre sepulcros fecha portais; 

Os edifícios são malefícios da conjura 
Municipal de um desalento e de uma Porta. 
Salvo a ranhura para sair o funeral 
Não há inquilinos nos edifícios vistos por fora 

Que é dos meninos com cataventos na aérea 
Arquitetura de gargalhadas em cornucópia? 
Almas bovinas acomodadas à matéria 
Pastam na erva entre as ruínas da memória, 

Homens por dentro abandalhados em unhas sujas 
Que desleixaram seu coração num bengaleiro; 
Mulheres corujas seriam gregas não fossem as negras 
Nódoas deixadas na sua carne pelo dinheiro; 

Jovens alheios à pulcritude do corpo em festa 
Passam por mim como alamedas de ciprestes 
E a flor de cinza da juventude é uma aresta 
Que me golpeia abrindo vácuos de flores silvestres 

E essa ansiedade de mim mesma me virgula 
Paula de pátria entressonhada. É um crisol. 
E, o fruto agreste da linfa ardente que em mim circula 
Sabe-me a sol. Sabe-me a pássaro. Pássaro ao sol. 

Entre mim e a cidade se ateia a perspectiva 
De uma angústia florida em narinas frementes. 
Apalpo-me estou viva e o tacto subjectiva-me 
a galope num sonho com espuma nos dentes. 
 

E invoco-vos, irmãos, Capitães-Mores do Instinto! 
Que me acenais do mar com um lenço cor da aurora 
E com a tinta azulada desse aceno me pinto. 
O cais é a urgência. O embarque é agora

Natália Correia

No tempo de ditadura, a pobreza era enorme, em todos os aspectos. Temos, ainda, de tudo um pouco do que aqui descreve Natália Correia, mas, pelo menos, não precisamos de ter medo do " tenente que faz a ronda"

Emília Pinto