terça-feira, 10 de junho de 2014

OFERECER



 Quando você for para o trabalho, para a faculdade, para uma balada, não vá com uma postura de buscar algo, conseguir algo, sugar algo do local ou das pessoas. Vá para oferecer, vá para gentilmente entregar às pessoas as qualidades de sua simples presença. Ofereça qualquer coisa. Um olhar profundo já é muito hoje em dia. Vá para os lugares e apenas treine olhar tudo com um olhar de abismo. Muitas pessoas precisam só disso: serem olhadas, contempladas suave e lentamente, reconhecidas em subtil, tocadas de alguma forma e conectadas com um outro que as transcende e reacende o mistério que as faz viver. No momento em que se coloca em uma posição mendicante, você adentra um mundo de carência, sente-se incapaz de oferecer algo aos outros e termina com um olhar que suga e enfraquece a energia de qualquer um ao seu redor. Ao final do dia, você continuará insatisfeito e certamente terá construído relações patológicas com os seres, baseadas em sua carência. Por outro lado, se adotar uma postura expansiva e radicalmente aberta, oferecendo sua existência ao deleite dos outros, você age reconhecendo que não tem nada a perder. Não há medo nem hesitação em seu olhar. Sem esperar ou exigir nada dos outros, você age desimpedidamente, em uma dança subtil em meio às situações. Qualquer solidez ou bloqueio é atravessada por sua leveza e transparência. Qualquer obstrução é liberada pela presença da sua espontaneidade. Você apenas sorri e faz todos sorrirem, ou ainda: você cria o espaço para que todos possam sorrir. Seu olhar sequer vem de seus olhos. É não-local, surge em qualquer olho, surge do espaço entre os seres, dos rizomas que os transpassam. Você age sem estratégias e cria um raro ambiente no qual cada pessoa se sente livre para igualmente abandonar suas estratégias e apenas ser. Isso é um alívio para qualquer um. Quando nos apresentamos como mendigos, quando pedimos por algo, tudo nos é insuficiente, ralo, pouco. No fundo, estamos fechados e por isso acabamos não vendo o que há, sem perceber os tesouros de cada lugar, de cada ser, de cada evento. É o coração contraído que suplica, que pede, que suga. Quando vamos sem nada pedir, estamos abertos. Tudo nos arrebata. Tudo já é demais e nos enriquece imediatamente. A qualidade viva das coisas faz nossa visão transbordar de luminosidade. Ao final do dia, brotará em você uma alegria sem causas, não condicionada. Não há frustração ou insatisfação. Você apenas deu o seu melhor e sente-se em paz.
Não interessa se alguém notou, se recebeu elogios ou se você foi completamente ignorado. Você ofereceu toda a sua profundidade. Não há presente maior que um homem possa dar.


 By Gustavo Gitti     in BEM- ESTAR-JUNTOS



Oferecer a nossa profundidade é o melhor presente que podemos dar a alguém e....custa tão pouco...

Emília Pinto




26 comentários:

  1. Não conhecia o texto, mas gostei de ler.
    Muito interessante mesmo.
    Um abraço e resto de boa semana

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    1. Nunca é demais falar na importância que tem um simples sorriso na vida de determinadas pessoas.Parar um pouco a escutar o outro é tão fácil e às vezes faz autênticos milagres. Muito obrigada, Elvira e desejo-te uma boa noite. Até sempre, amiga! Beijinhos
      Emília

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  2. Muito lindo e bem verdadeiro! Quanto menos esperamos, parece mais ganhamos e há os que esperam apenas quem os ouça... Lindo, gostei de ler! BJS,CHICA

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    1. Não custa nada, Chica e quem mais beneficia desses pequenos gestos somos nós que voltamos para casa muito mais felizes. Um beijinho e muito obrigada pela visita. Desculpa a ausência, mas estou com obras em casa e nem sempre posso vir ao computador. Brevemente far-te-ei uma visita. Até...
      Emília

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  3. Há pessoas que não sabem escutar e "sugam" realmente a nossa energia...Fazem com que o medo se espalhe...E é tão fácil sorrir e escutar quem precisa...
    Interessante o texto...Obrigada pela visita
    Beijos e abraços
    Marta

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    1. Como disse acima, Marta, não tenho podido ser tão assidua como de costume, e por isso peço desculpa.Fico muito contente que tenha gostado do texto. Em breve aí estarei para uma visitinha. Muito obrigada pelo carinho e até...Beijinhos
      Emília

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  4. Um texto que diz tudo!! Hoje em dia as pessoas só querem falar de si próprias...escutar os outros, é tempo perdido !! Conhecem o verbo receber e conjugam-nos em todos os tempos e modos !! Agora DAR?? Ah, isso é muito mais difícil... O egoísmo, a vaidade não o permitem... é uma perda de tempo!!
    Pois...não custaria muito ou não custaria nada! Mas...quem o faz primeiro?
    E a logística , entra também no assunto...
    Ah, minha querida Amiga, será que ainda havemos de ver este mundo mais generoso, no receber e no dar?? Deus queira que sim...
    Um beijo amigo e bom fim de semana e bom Santo António
    Graça

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    1. Boa pergunta, Graça!!!! Mas não sei responder. Temos que manter a esperança de que esse " mundo mais generoso " chegará e começando por nós mesmos oferecendo a cada dia o melhor que temos em nós, o nosso sorriso, o nosso olhar e a nossa mão sempre pronta a ajudar. Pegar numa moeda e dar a um pedinte é muito fácil, mas, parar um pouco com ele a conversar e a dar-lhe um sorriso isso parece que custa muito mais; fugimos deles a " sete pés ", se for preciso até trocamos de passeio e, se calhar, o que ele mais queira era um " olá, como vai?. Pois é, amiga, por que não fazemos isso ? Essa pergunta faça-o a mim mesma tantas vezes!!! Beijinhos, Graça e muito obrigada pelo carinho e belo comentário. Brevemente far-te-ei uma visita. Vai preparando um cafezinho, certo? Um boa semana!
      Emília

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  5. É fácil e não custa, quem ganha somos nós que acabamos por nos sentir bem. Lindo Texto!
    Bjs

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    1. Obrigada, Lilás! Ganhamos muito quando temos essa capacidade de " oferecer ", mas parece que nem para isso temos tempo. Há que mudar essa mentalidade, amiga e, confesso, tenho mudado muito nesse aspecto desde que faço voluntariado na loja social. Vejo lá muita necessidade de atenção e conversa e isso tem-me ajudado a crescer. Tenho no entanto um longo caminho a percorrer ainda. Beijinhos e uma boa semana
      Emília

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  6. Belo texto minha querida Emília!
    Mas por em prática torna-se complicado.O individualismo , a competição pura e dura é cada vez mais a base da educação dos tempos que correm. Felizmente há excepções...mas tão poucas!
    Espero que as obras em casa sigam a bom ritmo.
    Um grande abraço.

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    1. Mal de nós se não houvesse " excepções ", querida Emília. Felizmente há muito boa gente que passa a vida a oferecer-se ao outro sem querer nada em troca. Admiro muito toda essa gente fantástica. As obras, amiga, estão praticamente prontas; agora tenho que colocar todo o pó para fora de casa e isso vai custar muito, mas...irá aos poucos. Beijinhos e muito obrigada pela visita. Uma boa semana!
      Emília

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  7. Tem que haver prazer em dar sem esperar nada em troca e não dar como moeda de troca.

    Vive-se num mundo em que impera o interesse!

    Beijinhos.

    Lisa

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    1. Hoje o dinheiro impera e se não anda esse vil metal, pelo menos espera-se um outro " favorzinho " em troca daquilo que se fez. É triste, mas na maioria dos casos é assim. Beijinhos, querida Lisa e obrigada pela visita.
      Emília

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  8. Li este texto há poucos dias e lembro-me bem dele pelo modo como me despertou.
    Viver numa nova dimensão. Dar. Olhar. Ouvir e sentir.
    Muitos dias quando caminhava para o emprego eu pedia isso a Deus.
    Que me ajudasse a ser bom, simples e sempre construtivo.
    Que a minha vida fosse sempre útil e com uma mensagem de amor.

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    1. E Deus ouviu as tuas preces, Luis. Não te conheço pessoalmente, mas, quem se preocupa em pedir para ser um homem bom de certeza que é um verdadeiro ser humano onde habita uma grande humanidade. " dar...olhar...ouvir e sentir " coisinhas tão simples e que são de uma dificuldade tremenda para muita gente. Fiquei muito feliz com a tua visita e belo testemunho. Muito obrigada, amigo!. Que encontres à tua volta todos esses sentimentos lindos. Um beijinho.
      Emília

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  9. Um texto maravilhoso, querida Emília, que nos coloca num plano acima das nossas misérias: O prazer de dar, de oferecer, sem esperar retribuição alguma. Aliás, acabamos por receber, isto é, a satisfação interior e o conforto no nosso coração de ter olhado, sorrido, de ter prestado atenção a seres humanos nossos semelhantes que, muitas vezes, vivem na solidão e só precisam de ouvir um "ola" ou um "bom dia". Aqui vemos, claramente, que não é necessário possuir riqueza para dar momentos de felicidade a quem precisa. A riqueza vem de dentro, da nossa disponibilidade, do nosso relacionamento com os outros.

    Querida amiga, espero que as obras na tua casa estejam a seguir de vento em popa. Eu também, quando chega este tempo de Primavera e Verão fico mais assoberbada de trabalho. A casa fica mais cheia e, consequentemente, o Xaile de Seda "ressente-se". :)

    Muito obrigada pelas tuas visitas e comentários tão belos.

    Beijinhos

    Olinda

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    1. Muito obrigada, Olinda pelo comentário tão assertivo, aliás, como sempre. Quanto às obras, felizmente acabaram e já consegui que a maior parte do pó saísse daqui, pois estava já a incomodar.Na realidade, amiga, quando chega este tempo tão bom, penso que todos os blogs se ressentem; as pessoas saiem mais de casa para aproveitar o verão, pois ele é muito curto. Mas, vai-se fazendo o que se pode, não é verdade?. Sabes, Olinda, tenho muita pena das pessoas que vivem na pobreza sem terem como alimentar os filhos nestes tempos de grande desemprego, mas sinto também grande tristeza quando vejo os idosos sozinhos muitos deles sem sequer terem um vizinho que lhes faça um pouco de companhia. Às vezes têm vizinhos, mas estes não têm a tal " riqueza que vem de dentro...da disponibilidade do relacionamento com os outros Mas...não posso estar aqui a julgar os que não têm essa disponibilidade, porque eu também poderia fazer muito mais do que faço neste aspecto e isso não acontece.Já o fiz e senti-me tão bem que prometi repetir com mais frequência, mas...ficou-se pela promessa. Este texto é principalmente para mim, aliás, como todos os que aqui partilho porque tenho consciência das minhas necessidades interiores e do tanto que ainda tenho de fazer para me sentir bem. Aliás, a cada dia tentamos aprender alguma coisa e com esses tentativa tornamo-nos seres cada vez melhores. Agradeço-te o grande carinho, amiga e brevemente irei visitar-te. Até lá e espero que os teus dias tenham muitos momentos felizes. Beijinhos
      Emília

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  10. Um texto para ser lido várias vezes, beijo Lisette.

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    1. É verdade, Listte, um texto no qual devemos refletir; Será que não poderiamos fazer um pouco mais pelos outros? Claro que sim, amiga! Obrigada pela visita e até breve. Um beijinho de grande amizade.
      Emília

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  11. Palavras sábias.
    Gostei de ler, obrigado pela partilha.
    Tem um bom fim de semana, querida amiga Emília.
    Beijo.

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    1. Olá Nilsom! Fico contente quando um poeta como tu gosta das mensagens que tento passar com os textos que escolho. Falas muito de amor nos teus poemas e aqui está uma forma de amor, um amor simples, mas que parece de uma dificuldade tremenda. Temos muito a reflectir sobre o que nos transmite este texto. Obrigada, amigo e desejo-te tudo de bom, principalmente saúde e muito amor. Um beijinho
      Emília

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  12. Oi minha querida Emilia,
    Que texto maravilhoso, Conheço pessoas que se encontram com problemas reais, de saúde, financeiros, mas expandem seu sorriso e chagam até outras pessoas como se fossem um sol, e sua alegria contagia à todos. Chegam e distribuem amor, felicidade quando imaginamos que chegariam como mendigos, carregados de lamentos, carentes. Admiro demais as pessoas que conseguem sorrir apesar de chorarem por dentro, e ainda assim oferecem felicidade.
    Gostei muito , uma excelente escolha. bjs.

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    1. Não és só tu, Loudinha que admiras essas pessoas. Eu também fico pasmada com algumas que conheço, sempre a levar " pancadas " da vida mas que seguem o caminho sorrindo e animando os outros muitas vezes sem qualquer tipo de dificuldade. Gostaria de ser como elas e, quando as vejo volto para casa com a promessas de não mais reclamar e de dar graças ao que a vida me dá, mas..." é sol de pouca dura " como se costuma dizer. Nem sempre somos como gostaríamos de ser, mas há certas coisas em nós que poderíamos mudar se realmente nos esforçassemos. Vamos, pelo menos tentando, não é amiga? Muito obrigada pelo belo comentário e até breve aí na tua casa. Um beijinho carinhoso.
      Emília

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  13. Querida amiga

    Se entendêssemos
    que a mudança do mundo,
    começa em nós,
    entenderíamos
    o quanto dar de nós
    para esta mudança,
    é indispensável.

    Que haja sempre
    uma inspiração
    para acordar
    as palavras
    adormecidas
    em tua vida.

    São elas que dão sentido a tua vida,
    e as vidas que passeiam por tuas palavras.

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    1. Tens toda a razão, Aluisio ! Não adianta querermos uma mudança no mundo se nós não mudamos;; em todos os aspectos, a mudança tem que começar primeiro em nós, mas neste caso específico, mais ainda, porque se não tivermos disponibilidade para nos abrir ao outro com um sorriso, um olhar carinhos, uma mão amiga, não podemos esperar que façam isso connosco, por isso há que dar o exemplo colocando logo ao amanhecer o nosso melhor sorriso nos lábios. Muito obrigada, amigo pelas belas palavras e parabéns pelo tanto que dás aos teus alunos; tenho a certeza que és recompensado com o carinho deles e dos seus pais. Um beijinho
      Emília

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